LUTAR CONTRA A EXTREMA-DIREITA COM A LIDERANÇA DA CLASSE TRABALHADORA

TIAGO MIRANDA https://expresso.pt/politica/2020-07-29-Ventura-anuncia-contramanif-Sempre-que-a-esquerda-sair-a-rua-para-dizer-que-o-pais-e-racista-nos-sairemos-a-rua-para-mostrar-que-nao-e

Em Setembro, o partido de extrema-direita Chega realizou a sua conferência  nacional em Évora, uma das áreas em que tinha ganho mais apoio nas eleições legislativas do ano passado. Uma vez que o partido só foi fundado em Abril de 2019 e depois foi directamente para uma campanha eleitoral, esta foi a primeira vez que se reuniram para discutir as suas políticas na íntegra. Todo o tipo de veneno lançado pelos seus principais membros, como declarados supremacistas brancos e neonazis, foi claramente pronunciado.

Chega contra os direitos da mulher e dos comunistas

Os líderes do partido alegaram ser os defensores do Estado – em particular dos guardas prisionais – e contra os imigrantes e qualquer outra coisa que aparentemente ameace a nação portuguesa com uma agenda “internacionalista, globalista e progressista”.

Foi apresentada uma moção contra os direitos das mulheres, incluindo o direito ao aborto, que também atacava a comunidade LGBT e apelava a um regresso aos “valores familiares”.

Mas o ataque mais feroz foi reservado aos comunistas, pois uma moção apelava que qualquer partido com uma ideologia marxista se devia tornar ilegal em Portugal. Desta forma, Chega mostra-se abertamente como pretendente ao papel tradicional de um partido fascista, cujo método principal é o uso da força contra as organizações da classe trabalhadora, e cujo objectivo principal é a destruição dessas organizações.

A ameaça da extrema-direita

Num artigo no PÚBLICO do mês passado, Maria João Marques tinha razão ao afirmar que Chega não é motivo de riso, e que precisamos de fazer mais do que “protestar nas redes sociais”. O partido escreveu história em 2019 ao tornar-se o primeiro partido de extrema-direita desde a Revolução de 1974-75 a entrar no parlamento português, recebendo 1,3% dos votos. No entanto, em Janeiro deste ano, uma sondagem via-os a 6,2%, portanto ao mesmo nível do Partido Comunista Português.

E é em grande parte à custa do PCP que Chega está a ganhar tanto terreno eleitoral. Muitas das áreas onde tiveram melhor desempenho nas eleições de 2019 são tipicamente bastiões do PCP. Isto é relevante para a forma como a ameaça que Chega representa pode ser combatida, pois fala-nos da composição social da sua base eleitoral, e do papel que realmente desempenham em termos reais.

Quando os resultados eleitorais foram anunciados em Outubro passado, a líder do Bloco de Esquerda Catarina Martins deu preferência a um governo de coligação, no qual o seu partido poderia fazer parte. A liderança do PCP entretanto não compreendeu muito bem a razão da perda de votos que havia sofrido. Entretanto, André Ventura – o líder do Chega e antigo oficial da força policial ultra-reaccionária da GNR –  empreendeu uma ofensiva demagógica contra o governo. Dirigiu-se directamente à classe trabalhadora, criticando o sistema e apelando mesmo para uma nova república.

É fácil perceber por que razão certas camadas, mais empobrecidas ou inertes de trabalhadores seriam atraídas por esta retórica, especialmente quando o PCP e o BE tinham passado os cinco anos anteriores a agir como líderes de claque de um governo que continuava a implementar medidas de austeridade. O principal grupo do Bloco de Esquerda dificilmente se incomoda em esconder as suas tentativas de agradar à classe dominante portuguesa. . A liderança do PCP apresenta-se aos seus militantes ativos e em manifestações altamente lutadora pela causa operária, mas em contrapartida oferece na realidade uma falta de ação em prol da classe trabalhadora em geral, atenuando a luta de classes sempre que haja oportunidade, usando a técnica mais pragmática nos bastidores das negociações com os patrões e o governo. Só palavras mas faltam os atos. Resulta assim que muitos trabalhadores já não levam a sério as palavras superficialmente lutadoras de Jerónimo de Sousa, tendo elas um sabor a hipocrisia e traição. O vácuo que existe na esquerda abre caminho ao perigo imediato que Chega representa. Chega é o lobo disfarçado com pele de ovelha. Mostra-se como alternativa do Sistema, mas não o é. Devido à ausência duma verdadeira oposição de esquerda que se posicione abertamente contra a política pró-capitalista o Chega aproveita a oportunidade de semear divisões dentro da classe trabalhadora baseando-se na questão da raça e da nacionalidade.

Será Chega fascista?

Claro que sim. O Chega usa abertamente a política de duas faces. Enquanto em público joga com o desespero dos trabalhadores pobres usando uma linguagem demagógica. Nos discursos semeia o ódio. Na conferência do mês passado a natureza ultra-reaccionária do partido foi totalmente exposta. Isso apenas encoraja os gritos de pavor de “Fascismo!” em toda a esquerda.

Esta questão deve ser levada a sério. O fascismo é um fenómeno social que envolve o movimento de massas de elementos principalmente pequeno-burgueses da sociedade, numa contra-ofensiva reaccionária contra a classe trabalhadora. Como movimento social, ele encontra a sua expressão nas ruas. Como vírus que ataca a classe trabalhadora e se prepara para destruir o seu movimento.

Embora existam certamente elementos dentro de Chega que se sentiriam mais do que confortáveis em tomar o seu lugar num movimento fascista, temos de ser absolutamente claros de que tal movimento não existe por agora. 

Há dois anos atrás, uma tentativa das seitas fascistas em copiar e cooptar as manifestações de gilets jaunes para uma versão portuguesa acabou num boicote em massa, com um punhado de lunáticos de extrema-direita a tentarem interromper o trânsito com os seus coletes amarelos. Isto demonstra muito claramente o pouco espaço que existe na sociedade para o fascismo criar raízes. Além disso, os trabalhadores portugueses ainda não marcaram este período turbulento da história com o seu próprio movimento de massas. E se tal movimento de massas surgisse, as fileiras de trabalhadores seriam suficientemente grandes para esmagar qualquer movimento de oposição contra-revolucionário que se atravessasse no seu caminho.

Contudo, só porque o próprio fascismo não está em ascensão, não significa que devamos permitir que bandas de fascistas vagueiem livremente pelas nossas ruas. Os agrupamentos fascistas dentro e fora de Chega foram claramente encorajados pelo progresso eleitoral do partido. Devem ser recebidos com toda a força da classe trabalhadora sempre que se atrevem a levantar a voz em público.

De facto, o movimento operário – e especialmente a CGTP, filiada no PCP – deveria fazer muito mais para mobilizar as suas fileiras contra as actividades fascistas. Em lugar dos partidos marxistas serem ilegalizados, são os fascistas que deveriam ser proibidos de se organizarem de qualquer forma. Se levantassem o seu dedo mindinho, a CGTP poderia ter manifestações em massa de trabalhadores que encerrariam definitivamente a conferência de fascistas europeus que se realiza anualmente em Lisboa. Poderiam fazer com que os fascistas responsáveis pelo assassinato de Alcindo Bernardo Monteiro em 1995 fossem de novo presos e proibidos de se reorganizarem, e fazer com que o polícia que negou o assassinato de Bruno Candé fosse julgado por motivos raciais por obstruir o curso da justiça.

Lutar contra a extrema-direita com a liderança da classe trabalhadora!

Mas seria totalmente errado lidar com o fenómeno geral do aumento de popularidade do Chega através do uso exclusivo da força. Chega não está a beneficiar de um movimento activo de base social reaccionária, mas sim da passividade de certos trabalhadores que não vêem uma alternativa em qualquer dos partidos de esquerda aos seus problemas atuais: rendas elevadas, condições de trabalho terríveis e cortes nos serviços públicos. Para muitos destes trabalhadores, a insígnia marxista do PCP passou a simbolizar a traição. Em lugares seguros para os principais partidos, as autarquias lideradas pelo PCP têm tratado a sua principal base de apoio com desprezo ao longo de sucessivas gerações, submitindo-se na prática à lógica capitalista.

Só um partido de trabalhadores em luta, com políticas de emprego, habitação, cuidados de saúde e educação a favor da classe trabalhadora, lutando consistentemente a partir de uma posição de classe independente, poderia galvanizar estas camadas em acção.

Tanto o PCP como o Bloco de Esquerda carecem, neste momento, da liderança necessária para poderem ser o Partido que represente a alternativa de esquerda. É por isso que para combater o Chega temos também de lutar para transformar a esquerda em Portugal numa verdadeira alternativa à politica capitalista que nos faz sofrer na pele as suas consequências. Não há tempo a perder.