MARCELO NO PAÍS DAS MARAVILHAS

Photo by Diarmuid Greene/Web Summit via Sportsfile

No passado mês de Agosto, aquando da realização da Feira do Livro na cidade do Porto, o presidente da república Marcelo Rebelo de Sousa foi confrontado num diálogo um pouco aceso, com uma cidadã que se encontrava no local. 

Captado por vários meios de comunicação, o momento foi notícia nacional em vários jornais e estações de televisão, dando azo a muitas opiniões, debates e algumas entrevistas ao próprio Marcelo, a questioná-lo do ocorrido. 

Mantendo a sua imagem de marca, sempre muito sorridente, mas diplomático, respondeu a um jornalista que como presidente “a sua missão fundamental é estar junto do povo” que está para “ouvir, não para debater ou discutir”. 

Refira-se que todo este marketing, aliado ao facto de anteriores presidentes não terem tido este estilo, cria a ideia que o nosso presidente da república é realmente uma pessoa aberta, simpática, preocupada, sempre interessado em conhecer outros, tirar uma selfie, sempre disposto a um abraço ou a um beijinho mais carinhoso, a alguém que dele se aproxime e lhe solicite. Leva-nos a pensar que Marcelo é sem dúvida exclusivo nestas qualidades. 

Durante o diálogo ocorrido então com a dita cidadã, um sem-fim de perguntas catapultavam-se em direção ao nosso chefe de estado: não sabia como era possível viver com rendimentos tão baixos, tendo inclusivamente assistido ao suicídio de um colega que não aguentou mais o stress causado de toda a (o)pressão do país e do sistema; porque é que o governo tende a ajudar grandes empresas e não micro em situações de crise; porque é que ela tinha de comer pão (pergunta esta que deveria envergonhar qualquer presidente); porque é que o ordenado mínimo em Portugal é miserável há décadas; e várias muitas outras preocupações, e situações, em que vive ela… e milhões de portugueses. 

Marcelo não respondeu de forma concreta a qualquer uma das perguntas, embora, sempre a sorrir e com ar de interessado, fosse dizendo coisas básicas como, por exemplo, que a dita senhora devia convencer os portugueses a votarem noutro governo, que a democracia é “assim mesmo” (!!?), etc. 

Embora condicionado pela forma como o diálogo foi gerido, já que por vezes nem conseguiu responder, a verdade é que aos poucos e poucos, já farto de estar ali e desejando que aquilo acabasse, terminou por já nem responder a nada provando que, afinal, a sua verdadeira missão não é “estar junto do povo”, mas sim ser o irredutível defensor do sistema capitalista.

Notava-se agora no seu silêncio, na sua linguagem corporal, no sorriso, que embora usando máscara, já não se delineava no seu rosto. 

Dias mais tarde, ao responder a jornalistas sobre o sucedido, afirmava “era-me pedido que faça mais”, como se ele não pudesse fazer mais, se necessário, em casos de emergência. E também que “o poder absoluto não é democracia”, referindo-se a questões levantadas pela cidadã, queixando-se do governo facilitar apenas 300 euros por mês para alguns necessitados nestes tempos de pandemia, que quase em gritos de desespero lhe dizia que “tome uma atitude pelo povo, em nome dos nossos jovens, das nossas crianças”. 

Como se ela quisesse algum tipo de poder absoluto (!!?), queria sim era que alguém a representasse e a pudesse minimamente defender contra a classe dominante e os sucessivos governos que exploram continuamente os trabalhadores, e que os fazem viver na miséria sem perspetivas de futuro. 

Uma vez mais notava-se que a missão fundamental do presidente não era a de “estar junto do povo” como ele o havia referido. Marcelo mostrava a sua natureza de classe, ao lado do capital, dos ricos e dos poderosos, terminando airosamente e tranquilamente a passear-se, como que em mais um capítulo de Lewis Carroll, nesta literatura absurda de… Marcelo no País das Maravilhas! 

A classe trabalhadora não pode, nem deve estar dependente deste tipo de fantoches do sistema, que nunca vão ajudar ninguém, já que isso iria em contradição com o que defendem, o lucro total e absoluto das grandes corporações. A classe trabalhadora dever-se-ia organizar de forma independente, democrática e revolucionária para também poder defender os seus interesses. Unida e organizada teria muito mais poder que o imaginado.  

Como nos disse Rosa Luxemburgo: “As massas são na realidade os seus próprios líderes, criando dialeticamente o seu próprio desenvolvimento”.