“Aumentos salariais”: uma declaração de guerra!

José Coelho-Lusa

Perante a crise que eles mesmos criaram, governo e burguesia declararam guerra à classe trabalhadora. A espiral inflacionária que vivemos não é fruto do aumento da massa salarial, mas é derivado da injeção monetária sem precedentes nos últimos anos: primeiro para resgatar a crise da especulação financeira de 2008, depois para manter os grandes negócios a prosperar durante a pandemia Covid 19.

Foi através de taxas de juro irrisórias, quando não negativas, e a pura e dura impressão de papel-moeda que permitiu ao capitalismo, pelo menos temporariamente, varrer as contradições do seu sistema para debaixo do tapete. Essa expansão monetária e esses juros baixos, durante mais de uma década não serviram para investimentos produtivos ou para alívio dos problemas e dificuldades dos trabalhadores e dos mais pobres. Serviu para alimentar uma nova bolha especulativa e o enriquecimento pornográfico duma ínfima minoria! .

A dialética explica-nos como a tese se transforma em antítese e agora vemos como aquilo que serviu para manter o capitalismo à tona se transforma agora na ignição da crise: a expansão monetária tornou-se o combustível da inflação e a euforia especulativa deu lugar a perdas profundas no primeiro semestre. Já o anúncio, há dias, dos novos dados sobre a inflação nos Estados Unidos, voltou a atirar os índices bolsistas ao tapete!

No que diz respeito à inflação em Portugal, se esta em dezembro de 2021 se ficou pelos 2,7%, em agosto de 2022 já se encontrava nos 8,9%!

Convém lembrar que os aumentos dos funcionários públicos para este ano de 2022 foram de 0,9% e no privado estimam-se aumentos em torno dos 2%  . Quanto aos pensionistas, muitos dos quais com pensões absolutamente miseráveis, os aumentos foram, este ano, de 0.24% a 1% (consoante os escalões), com uma esmola de 10€ adicionais para as pensões mais baixas.

A inflação, em finais de agosto – repetimos! – , encontrava-se já nos 8,9% e ainda não se fizeram sentir os aguardados aumentos brutais de luz e gás que ocorrerão a partir de Outubro! Em 2022 temos já uma enorme perda real de salário, tanto para os trabalhadores do sector publico como do privado, bem como do valor real das pensões. E tudo isto em cima das perdas salariais decorrentes dos anos da troika e da austeridade, num dos países com mais baixos salários na União Europeia!

Neste cenário de inflação descontrolada, e tendo em conta que os aumentos salariais da função pública são um indicador para os aumentos no setor privado, só poderemos encarar os anunciados aumentos salariais de 2% para a função pública em 2023 como uma declaração de guerra à classe trabalhadora deste país, chamada a pagar a crise do capitalismo português.

Sejamos claros: não foram os ridículos aumentos de salários e pensões em 2020, 21 ou 22 que fizeram disparar a inflação. A espiral inflacionária foi resultado, primeiro da expansão monetária e da especulação, depois das perturbações nas cadeias de produção e abastecimento devido à pandemia, e agora por causa da guerra económica que o Ocidente lançou contra a Rússia. E não tenhamos ilusões: mesmo se a guerra na Ucrânia terminasse amanhã, as sanções irão continuar, Como continuam há décadas contra Cuba, Irão, Coreia do Norte, Venezuela…

É a crise do capitalismo, os crescentes protecionismos e competição entre blocos rivais, a guerra económica travada entre as várias oligarquias que faz disparar a inflação. O governo “socialista” sabe isto perfeitamente, mas cinicamente não hesita em fazer passar a fatura do preço da crise e dos custos da guerra aos trabalhadores e pensionistas – e quantos deles não deram, ainda há escassos meses, uma vitória eleitoral esmagadora ao PS!

Mas a crise não poupará ninguém: nem os que ontem deram a maioria absoluta ao PS, os muitos que se abstiveram ou mesmo aqueles que votaram em sereias populistas!

É absolutamente urgente que o BE rompa com a “coligação da guerra” – não é possível vencer a crise sem parar a guerra – e é urgente que tanto Bloco de Esquerda como Partido Comunista Português sejam oposição no parlamento como na Rua; que os Sindicatos comecem desde já um trabalho de esclarecimento, agitação e organização dos trabalhadores: uma vaga de plenários e sessões de esclarecimento por todos o país, por todos os serviços e empresas se possível for, têm de alimentar a tempestade de mobilizações, manifestações, ocupações e greves que temos de fazer desabar sobre o governo e a burguesia, para inverter o rumo de empobrecimento e ruína dos trabalhadores e do país.

Contudo, não podemos lutar às cegas. Necessitamos dum programa de classe que responda não apenas aos problemas mais urgentes (atualizações de salários e pensões, reforço do SNS, etc.), mas que seja também um programa de TRANSIÇÃO para o socialismo, porque enquanto as alavancas da economia, enquanto os bancos, as grandes empresas, os setores estratégicos estiverem nas mãos da burguesia, nenhuma conquista será definitiva, nenhuma solução será perene, nenhuma Paz será alcançada.

Nem guerra entre os povos, nem paz entre as classes!

Todos à luta!