E se a NATO ganhar a guerra?

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A guerra da Ucrânia há muito que deixou de ser (se alguma vez foi…) um conflito entre Moscovo e Kiev. E se o exército ucraniano é fardado, alimentado, treinado, armado, municiado, pago e comandado pela NATO…! deveremos falar em “exército ucraniano” … ou num “exército da NATO que fala ucraniano”?

Em 1914 o império Austro-húngaro declarou guerra e invadiu a Sérvia – e esse conflito deflagrou os vários sistemas de alianças que provocaram a Iª Guerra Mundial. Mas tal como em 1914 Lenin não tomou o partido da Sérvia (país invadido), porque por detrás da Sérvia estavam os impérios britânico, francês e russo; também nós marxistas em 2022 não tomámos o partido da Ucrânia porque por detrás da Ucrânia estão a NATO, a EU e o imperialismo americano.

Significa isso que não defendemos o direito do povo ucraniano à sua autodeterminação? Pelo contrário! Mas a autodeterminação do povo ucraniano é uma miragem enquanto a Ucrânia estiver financeira, económica, diplomática e militarmente dependente dos Estados Unidos e dos seus aliados (aka vassalos) europeus que usam o povo desse país como carne para canhão na luta contra a Rússia.

Na época, numa época em que não existiam bombas nucleares, Lenin teve ainda o cuidado de advertir que não se apoia o direito das nações à autodeterminação (mesmo que fosse justificado) se isso significasse arrastar os grandes poderes para uma guerra.

É preciso frisar que não consideramos o cenário nuclear como a hipótese mais credível. Mas mesmo descartando a hipótese “Dr. Strangelove” como não sendo a hipótese mais plausível (porque a burguesia pode ser acusada de muitas coisas, mas não de ter desejos suicidas); mesmo partindo do princípio que não haverá uma confrontação convencional direta entre Rússia e o Ocidente que escalaria de modo inimaginável o grau de destruição e carnificina do atual conflito; é impossível desde já não reconhecer que a guerra económica que acompanha o conflito militar na Ucrânia provocará muitas mais vítimas no chamado “Sul Global” do que na região do Donbass.

Ou dito de outra forma: “ganhe quem ganhar” a guerra da Ucrânia, a classe trabalhadora internacional perderá sempre! E, entre a classe trabalhadora internacional, a primeira vítima será sempre o povo ucraniano: “ganhe quem ganhar” o país soçobrará destruído, endividado e adiado: aos estimados 7 milhões de refugiados internacionais e 9 milhões de deslocados internos, “ganhe quem ganhar” (seja a clique oligarca de Moscovo ou de Kiev) apenas poderemos esperar a continuação do empobrecimento e da repressão na Ucrânia, que não é um país étnica, linguística e culturalmente uniforme e que se encontra em guerra civil desde 2014.

Palestina, Irlanda, Catalunha, Quebeque, Sahara Ocidental, Caxemira, etc., etc., etc. Julgamos não serem precisas fastidiosas explicações para demonstrar porque os capitalistas não são capazes de resolver o problema das “minorias nacionais” e garantir o direito à autodeterminação – sejam os capitalistas russos, ucranianos, europeus ou americanos.

Aliás! Nenhum bem, nenhum objetivo progressista, advirão desta guerra: uma guerra reacionária e de rapina, mascarada de “defesa dos direitos humanos” … pelos dois bandos imperialistas que disputam os recursos, os mercados e o domínio geopolítico sobre a Ucrânia! E, por isso, se os marxistas condenam inequivocamente a invasão russa da Ucrânia, não podem deixar também de condenar as ingerências, as provocações e ambições dos imperialistas Ocidentais que desejaram e provocaram esta guerra “por procuração” com a Rússia.

E a luta de classes?

A luta de classes já foi e muito mais exacerbada será com a guerra na Ucrânia e a sua absurda e desumana continuação.  

Há um sector da esquerda que desde o princípio claudicou perante as pressões do imperialismo e juntou-se ao coro dos que defendem a guerra, o envio de armamentos e de sanções, um setor que eventualmente rejubilará com uma hipotética vitória da NATO sobre Putin “o novo Hitler”, enquanto se queixa amargamente dos efeitos da guerra que eles apoiaram. Porém, outro setor existe ainda que, opondo-se à guerra, teme que uma possível vitória da NATO represente um reforço do imperialismo ocidental e um agravar da correlação de forças entre os trabalhadores e a burguesia.

Sejamos claros: a guerra da Ucrânia é uma manifestação da crise do capitalismo! E “ganhe quem ganhar” nenhuma solução ou estabilidade duradouras serão alcançadas. A guerra teve desde já o condão de acelerar a crise capitalista e agravar as condições de vida da classe trabalhadora, seja na Europa, nos Estados Unidos ou no “Sul Global”. Mesmo que a guerra (no plano militar) terminasse amanhã, “ganhe quem ganhar” é certo e seguro que as sanções irão continuar – como continuam há décadas sobre Cuba, Irão, Coreia do Norte… Porém, desta vez, os imperialistas Ocidentais resolveram fazer da Rússia (o maior exportador de matérias-primas do mercado mundial…) a “nova” Coreia do Norte! … E isto está a ter repercussões que (tolamente) eles não consideraram, mas cujas consequências não os farão mudar de rumo porque, ao fim do dia, serão os trabalhadores a pagar pelas suas políticas irresponsáveis…

E se o regime de sanções continuar em vigor não será possível (especialmente) à Europa escapar à crise energética e à debacle económica. A não ser, claro, que amanhã no Kremlin se sentasse uma marioneta liberal, disposta a anuir a todas as cedências e pilhagens do Ocidente, permitindo o levantar das sanções e algum amenizar dos efeitos duma crise que não começou – repetimos! – com a atual guerra.

Mas tendo em conta as sanções, a proibição de vistos e viagens, o cancelamento da cultura russa, a diabolização e russofobia manifestadas pelo Ocidente, a humilhação nacional duma hipotética derrota, os seus custos materiais e financeiros; tendo em conta também o êxodo daquela parte da população russa mais abertamente “pró-ocidental”, não é, de todo credível, que a prazo o Ocidente conseguisse criar e suster na Rússia um governo estável e subserviente aos seus desígnios. Tal como as intervenções imperialistas não foram capazes de o alcançar no Iraque, Afeganistão ou Líbia…pelo contrário, mais provável será que uma eventual derrota da Rússia na guerra dê origem a um novo levantamento da classe trabalhadora e que uma nova revolução varra de cena a oligarquia corrupta e criminosa que jogou o destino do país num lance de poker, recuperando-se as gloriosas tradições de Outubro!

E no Ocidente? Num cenário de crise, prolongada e profunda, na realidade concreta e atual em que já vivemos e na qual somos desde já avisados sobre os terríveis invernos que nos esperam na próxima década “ganhe quem ganhar”; o “nosso” bando imperialista não será capaz de inverter a prazo a crise económica e social e as lutas de classes que inevitavelmente despontarão.

Não se trata de futurologia ou “wishful thinking”, mas de aprender com a História:  Não foi a 1ª Guerra Mundial a parteira da Revolução Russa, da Internacional Comunista e da ascensão de partidos comunistas de massas?

E no fim da 2ª Guerra Mundial, França e Inglaterra não emergiram elas como nações “vitoriosas”, apenas para que as revoluções anticoloniais destruíssem os seus impérios? E se, nessa altura, a revolução proletária não trinfou entre países “derrotados” e “vencedores” como Itália, Grécia, França ou Grã-Bretanha, não foi porque tal se deveu à política estalinista de conciliação de classes nos países da Europa ocidental, por troca com a divisão do continente em “esferas de influência”? 

Ora, diante desta nova confrontação imperialista global, como não antecipar um novo ascenso da luta de classes, “ganhe quem ganhar”?

“Luta de Classes” … Eis uma ideia, um conceito, uma variável que nunca entra nas equações cogitadas pelos milhares de analistas, especialistas, comentadores, opinadores e comendadores que nos invadem o plasma da televisão, do telemóvel ou do tablet. Não é por “acaso”: é de propósito! Para todos estes papagaios mediáticos a classe operária é pouco mais do que um zero à esquerda: na verdade, nada mais é que um zero absoluto! Uma mole humana amorfa e manipulável cuja função e destino é trabalhar, consumir, pagar a crise e morrer nas trincheiras. Uma e outra vez.

Mas não são a propaganda do telejornal, as redes sociais, as fake news, ou os think tanks que determinam a consciência. Podem, durante um tempo, anestesiá-la, mas não podem suprimi-la.  Em última instância, são as condições materiais de existência determinam a consciência social de existência: e não há propaganda de guerra que estique o salário ao fim do mês.

Seja qual for o bando de ladrões imperialistas que ganhe a guerra da Ucrânia, entrámos numa nova era: a crise capitalista foi profunda e irreversivelmente acelerada. Estamos, é certo, ainda a viver o preâmbulo dos grandes acontecimentos porvir, mas a tarefa dos marxistas não é apoiar nenhuma das oligarquias em guerra, mas de esclarecer a consciência, organizar e mobilizar a classe trabalhadora para o derrube dos capitalistas que a oprimem, a exploram e a ordenam a morrer nas trincheiras.

Não somos cheerleaders, não tomamos como nossas as políticas ou desígnios deste ou daquele bando imperialista em luta pelo domínio mundial. E também não lutamos pela “nação”. Lutamos pela nossa classe porque somos marxistas, porque somos revolucionários!

E tal como em 1917 agitamos:

Paz às cabanas, guerra aos palácios!

Proletários de todos os países, Uni-vos!