Editorial Colectivo Marxista 2: A crise da saúde é uma crise do capitalismo

Quando a pandemia da Covid-19 chegou a Portugal no ano passado, encontrou um sistema de saúde
que não poderia estar menos preparado. Devido a uma década de fortes cortes na saúde pública
impostos pela Troika, mas continuados pelo governo do PS, à resultante emigração de médicos e
enfermeiros aos milhares, à expansão do setor privado da saúde por iniciativa do governo, ao
encerramento de centros de saúde e aos aumentos das taxas moderadoras para níveis inacessíveis,
o SNS já estava em crise total antes do coronavírus chegar.

Ao mesmo tempo, nem um euro foi gasto na prevenção de uma pandemia que os cientistas haviam
alertado que eventualmente chegaria. Nas palavras de Miguel Guimarães, Presidente da Ordem dos
Médicos, em Abril deste ano, “a falta de pessoal no SNS é uma situação crónica. Nenhum trabalho
sério foi feito para fortalecer o SNS. ” Desde que a pandemia apareceu, nada foi feito para a ‘trancar
no ninho’ – políticos de todo o mundo desvalorizaram o potencial perigo a favor da não perturbação
da economia. No capitalismo, isso significa a exploração dos trabalhadores sem consideração pela
sua segurança. Até o primeiro confinamento foi, de certa forma, imposto pela população, que tirou
os filhos das escolas, se afastou das consultas hospitalares e obrigou a paralisações no trabalho e ao
acesso ao trabalho remoto.

Depois do primeiro confinamento se ter mostrado relativamente eficaz em Portugal, a economia foi
aberta imediatamente e nada foi feito para que o país se preparasse para uma segunda vaga. Como
Guimarães observou ainda, “Passamos então por um período de três a quatro meses, durante o
verão, em que tínhamos um baixo número de pacientes infetados por dia e pacientes internados,
que deveríamos ter usado para preparar uma segunda ou terceira onda. Na época, epidemiologistas
nacionais e internacionais já falavam dessa possibilidade e disseram que seria muito pior. Nós não. ”
O governo de Costa chegou a dizer que não haveria um segundo confinamento. Mais uma vez,
guiado pela ‘pressão económica’ das grandes empresas contra o resgate financeiro de trabalhadores
e proprietários de pequenas empresas no caso de outra paralisação, o governo ignorou os sinais de
alerta. Nos primeiros dois meses deste ano, Portugal atingiu uma das taxas de infeção e mortalidade
por Covid-19 mais elevadas do mundo. Costa acabou por ser forçado, com mais de 300 mortes
diárias, a fazer o que disse que nunca faria. Desde então, tem havido restrições aleatórias que
mudam de um dia para o outro. Ao mesmo tempo, a União Europeia falhou na implementação do
plano de vacinação, a favor de interesses políticos e dos lucros das grandes empresas farmacêuticas,
dando ao vírus mais tempo para sofrer mutações e se continuar a espalhar. Esses dois fatores
contribuíram para a terceira vaga na qual Portugal parece agora ter entrado, com uma taxa de
infeção que disparou novamente e novas decisões do governo com pouco efeito.

Além do flagelo da própria doença Covid-19, a pandemia desencadeou uma crise ainda mais
profunda no SNS. A taxa de mortalidade em Portugal aumentou 13% em relação aos anos anteriores,
mas 58% das mortes adicionais não tiveram nada a ver com o coronavírus – pelo menos em parte
foram relacionadas com a falta de acesso a cuidados essenciais ou tratamento. Os milhares de
funcionários que foram contratados para cobrir algumas das falhas na saúde pública a fim de
combater a pandemia têm contratos temporários. Assim que forem deixados cair, haverá uma
escassez ainda maior de pessoal e recursos, independentemente do vírus se continuar a espalhar ou
não.

Durante a pandemia, os super-ricos de Portugal só ficaram mais ricos: dos seis bilionários em 2019, o
país agora tem nove. Mesmo do ponto de vista capitalista, existe uma certa lógica em usar uma
parte dessa enorme riqueza privada acumulada para ajudar o sistema de saúde a reerguer-se. Mas
claro, no sistema capitalista a lógica que sempre vence são os lucros a curto prazo, em vez da saúde
e sustentabilidade a longo prazo. Se houver crises, o fardo será sempre carregado pela classe
trabalhadora, que sofrerá muito mais quanto mais profundas essas crises forem. O que é preciso é
acabar com este sistema, lutando por uma sociedade socialista que possa mobilizar todos os
recursos possíveis em serviço da humanidade.

Imagem: Pedro Fiuza/ZUMA Wire/dpa/picture alliance