Israel-Palestina: imperialistas temem escalada da guerra 

Artigo de Fred Weston 

A guerra de Israel em Gaza tem todo o potencial para escalar para um conflito muito maior, com frentes abertas na fronteira com o Líbano e na Cisjordânia, e tumultos espalhando-se por toda a região. Uma tal escalada teria um enorme impacto, não só em todo o Médio Oriente, mas em toda a situação mundial. Os bombardeamentos maciços em curso contra Gaza já estão a abalar o mundo, política, económica e socialmente. 

Todos os planos do imperialismo norte-americano na região estão agora em cacos e eles estão desesperadamente tentando colar as peças novamente. Mas não há forma de regressarem à situação precária que existia antes dos acontecimentos de 7 de outubro. 

O carácter sem precedentes desta situação pode ser visto no facto de o Presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ter sentido necessidade de usar toda a autoridade da sua posição como líder do país imperialista mais poderoso do mundo para tentar recuperar alguma aparência de controlo, apressando-se a fazer uma visita pessoal a Netanyahu e ao seu gabinete de guerra. 

O dilema que o imperialismo norte-americano enfrenta na região é: como apoiar totalmente Israel na sua sangrenta investida contra Gaza e, ao mesmo tempo, proteger os interesses dos EUA em todo o Médio Oriente, que estão agora em risco? Para compreender este dilema, é necessário descrever brevemente a alteração do equilíbrio de forças entre as grandes potências, tanto a nível global como no próprio Médio Oriente. 

O primeiro fator é o declínio relativo do imperialismo norte-americano – e sublinhamos a palavra “relativo”, pois continua a ser, de longe, a força imperialista mais poderosa do planeta, com a máquina de guerra mais poderosa que a história alguma vez viu. Os Estados Unidos gastam mais em defesa do que os 10 países seguintes juntos. Assim, do ponto de vista militar, ninguém pode igualar o poder de fogo dos EUA. O segundo maior gastador é a China, mas está muito atrás dos Estados Unidos. 

O poder de fogo por si só, no entanto, não é suficiente. Também é preciso olhar para a capacidade de usar esse poder de fogo e para a capacidade económica dos EUA de manter um esforço de guerra por um longo período de tempo. É aí que o seu relativo enfraquecimento parece mais evidente. Em comparação com outros países, o músculo económico dos EUA diminuiu significativamente em termos relativos. Houve um tempo em que os EUA produziam metade do PIB mundial. Este número baixou agora para um quarto. 

O relativo enfraquecimento do imperialismo norte-americano significa que este não pode desempenhar o papel incontestável de polícia do mundo como costumava fazê-lo no passado. Sua humilhante retirada do Afeganistão em 2021 – depois de 20 anos tentando reforçar seus fantoches locais no país – foi um claro exemplo disso. A sua limitada margem de manobra na crise síria, em que a Rússia desempenhou um papel muito mais importante, foi outro exemplo. 

Este relativo enfraquecimento do imperialismo norte-americano tem sido acompanhado pela crescente força e influência de outras potências: em primeiro lugar, a da China, que aumentou maciçamente os seus gastos militares, e a da Rússia, que reafirmou a sua posição no Médio Oriente, como vimos na Síria, e mais recentemente na Ucrânia. 

Neste cenário, várias potências menores têm vindo a flexionar cada vez mais os seus músculos, do Irão à Turquia, da Índia à Arábia Saudita. Israel, embora continue a ser o único aliado real e fiável dos EUA no Médio Oriente, também se livrou das garras da influência norte-americana e prossegue a sua própria política. 

A “Normalização” está em frangalhos 

O mais importante de tudo para os interesses dos EUA na região foram as manobras do Irão para bloquear o chamado processo de “normalização”, que levou Israel a estabelecer relações diplomáticas com vários países árabes. Israel tem acordos de paz há muito tempo com o Egito (desde 1979) e com a Jordânia (desde 1994). E durante a presidência de Trump, como consequência dos Acordos de Abraão de 2020, o Bahrein e os Emirados Unidos reconheceram Israel, tendo-se juntado mais tarde ao Sudão e a Marrocos.  

A Arábia Saudita, no entanto, nunca teve relações diplomáticas com Israel, mas antes da recente mudança dramática na situação, reuniões de alto nível estavam ocorrendo, com ministros israelitas visitando seus homólogos sauditas. O objetivo era acrescentar a Arábia Saudita à lista de países com “relações normalizadas”. A atual crise pôs fim a isso. 

A administração norte-americana tem um interesse ativo no estabelecimento de relações normais entre Israel e a Arábia Saudita, ambos considerados aliados na região pelos americanos. Os EUA estão a tentar criar relações entre vários países da região que sejam benéficas para os seus interesses, contrariando a crescente influência tanto do Irão como da Rússia, mas também da China. 

Tudo isto seria feito à custa dos palestinianos, que teriam sido praticamente excluídos da equação. Enquanto Netanyahu prosseguia as negociações com os sauditas, indicou muito claramente que não seria feita uma única concessão aos palestinianos. 

De facto, Netanyahu, à frente de uma coligação governamental que inclui fanáticos de extrema-direita, tem promovido sistematicamente cada vez mais anexações de terras palestinianas na Cisjordânia. Promoveu colonatos por parte de alguns dos colonos sionistas mais fanáticos e ultra fundamentalistas, que estão armados, são apoiados pelos militares israelitas e que sistematicamente têm aterrorizado as comunidades palestinianas na Cisjordânia. 

As autoridades sauditas – enquanto se preparavam para chegar a um acordo com Israel – continuaram, naturalmente, a falar abertamente dos direitos nacionais dos palestinianos, mas sem levantar um dedo para os ajudar efetivamente a alcançar esses direitos. Esta aproximação iminente entre Israel e a Arábia Saudita foi descrita como sendo uma potencial “mudança tectónica” que serviria para fazer recuar a crescente influência do Irão na região. O problema é que o Irão tinha “normalizado” as suas relações com a Arábia Saudita em março deste ano, num acordo mediado pela China. 

Aqui vemos uma expressão clara da mudança do equilíbrio de poder e influência. A China tem vindo a promover os seus interesses económicos na região, à medida que tenta manter a estabilidade a nível interno. A Rússia tem interesse em abrir um corredor diretamente para o Golfo Pérsico, através do Azerbaijão e do Irão, e está a pressionar para um cessar-fogo com o objetivo de estabilizar a região. 

Numa tentativa de contornar as sanções dos EUA (reforçadas sob Trump), o Irão tem tentado espalhar a sua influência por toda a região. O restabelecimento das relações diplomáticas com os sauditas fez parte desse processo. 

Os próprios governantes reacionários sauditas têm vindo a avançar para uma posição mais independente dos EUA. Durante a primavera Árabe de 2011, a Arábia Saudita assistiu com horror ao abandono por parte de Washington de Mubarak, que fora seu fiel aliado por mais de três décadas. Os EUA não tinham opção, pois a alternativa era uma revolução de pleno direito no Egito que poderia ter deixado de lado não apenas o odiado Mubarak, mas teria ameaçado o capitalismo como um todo. 

A camarilha no poder saudita chegou a uma conclusão clara: os EUA não são um aliado fiável e não nos defenderão até ao fim. Decidiram equilibrar-se entre os EUA, a Rússia e a China para adquirir uma posição um pouco mais independente. Isso foi expresso no período recente na política da Arábia Saudita de cortar a oferta de petróleo dentro da OPEP, o que manteve os preços do petróleo altos, em benefício da Rússia, uma política que foi recebida com fúria silenciosa em Washington. 

É neste contexto que temos de compreender a aliança do imperialismo norte-americano com Israel. Este último continua a ser o seu único aliado estável, o único com que pode contar quando as fichas estão em baixa. Os EUA continuaram a apoiar Israel não apenas em palavras, mas também em milhares de milhões de dólares de ajuda militar. E quando considerar necessário, como na crise atual, pode aumentar maciçamente esse nível de ajuda, com o envio de mais armas. 

Os EUA também enviaram dois porta-aviões para as proximidades de Israel, o USS Gerald R. Ford e o USS Dwight D. Eisenhower, juntamente com outros oito navios de guerra americanos, perfazendo um total de 10 navios de guerra com cerca de 12.000 militares a bordo, e mais de 130 aviões de combates. Não pretendem envolver diretamente militares norte-americanos em quaisquer combates, mas sim dissuadir quaisquer outras potências, em particular o Irão, de intervir contra Israel. 

A guerra pode alargar-se 

O que o governo dos EUA teme neste momento é que o atual conflito possa espalhar-se para além de Gaza. Já há sinais de que poderia. As forças do Hezbollah lançaram foguetes contra Israel, atingindo postos do exército das Forças de Defesa Israelita (FDI) e outros alvos. Israel, por sua vez, respondeu disparando contra o Líbano. 

Ao longo da última semana, houve uma série de incidentes desse tipo, confirmando que um conflito mais amplo poderia emergir, especialmente no caso de uma invasão terrestre de Gaza. Milhares de pessoas que vivem na região fronteiriça do Líbano têm fugido para o norte por medo de tal conflagração, enquanto Israel começou a evacuar as pessoas para longe da fronteira com o Líbano. 

Em 2006, 1.000 libaneses foram mortos em combates entre as forças israelitas que invadiam o sul do Líbano e combatentes do Hezbollah. Desde então, o Hezbollah aumentou significativamente o seu poder de fogo – com a ajuda do Irão. Note-se que a aventura de 2006 terminou com uma derrota tática para Israel, que foi forçado a retirar-se sem ter atingido os seus objetivos. 

O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, afirma que agora tem 100.000 combatentes à sua disposição. Os EUA estimam também ter cerca de 150.000 foguetes armazenados. O ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, respondeu à possível ameaça de guerra do Hezbollah ameaçando “… devolver o Líbano à Idade da Pedra.” No entanto, um tom tão beligerante dificilmente esconde a preocupação subjacente de que a abertura de uma segunda frente representaria uma séria ameaça para Israel. 

De acordo com um artigo do New York Times de 16 de outubro: “Autoridades israelitas e americanas avaliam atualmente que o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, não quer uma guerra total com Israel, por medo dos danos que isso causaria ao seu grupo e ao Líbano”. Mas imediatamente acrescentou que “as autoridades dos EUA disseram que a avaliação pode mudar à medida que mais informações são recolhidas e os eventos se desenrolam“. 

Os acontecimentos, no entanto, estão de facto a desenrolar-se – entre eles: a invasão terrestre que Israel está a preparar em Gaza. A morte de 500 civis dentro e nos arredores do Hospital Árabe Al-Ahli é, acontecimento que provocou ondas de choque em todo o Médio Oriente e não só, e que foi algo para o qual os americanos não se tinham preparado. 

Os governos dos EUA e de Israel temem que o conflito possa escalar e, se o fizesse, significaria que os militares israelitas teriam que lutar em pelo menos duas frentes, se não mais, ao mesmo tempo. E poderia levar à intervenção direta das forças norte-americanas, pelo menos em termos de ataques aéreos dos navios de guerra estacionados na área. 

As recentes trocas de tiros entre as forças do Hezbollah e os militares israelitas têm sido as mais graves desde 2006, e a evacuação da fronteira norte por Israel, juntamente com o envio de unidades militares adicionais para a área, indicam que, apesar das suas “avaliações”, o receio de que se abra um conflito na fronteira norte de Israel é real. Tal cenário forçaria Israel a deslocar as forças de que necessita em Gaza e tornaria cada vez mais difícil o policiamento da situação cada vez mais instável na Cisjordânia. 

Entretanto, Al-Sisi, o Presidente do Egito, advertiu Israel contra o forçar os palestinianos a sair de Gaza e a entrar na Península do Sinai, pois isso transformaria inevitavelmente a área numa base palestiniana a partir da qual atingiria Israel, à semelhança da situação no sul do Líbano. Isso abriria o cenário de forças israelitas bombardeando o território egípcio no futuro, empurrando assim o Egito para a guerra com Israel. 

A ira dos povos árabes 

A invasão terrestre de Gaza por Israel levaria inevitavelmente à morte de um número ainda maior de palestinianos, o que agitaria enormemente toda a região. Os povos árabes – por oposição aos seus líderes políticos – sentem genuinamente a situação do povo palestiniano, que veem como irmãos e irmãs. Se o derramamento de sangue em larga escala em Gaza, muito para além de tudo o que vimos até agora, continuar a dominar os ecrãs de televisão, isso irá inevitavelmente radicalizar a população árabe em todo o Médio Oriente, a começar pelos jovens. 

No domingo, 15 de outubro, teve lugar em Rabat, Marrocos, uma enorme manifestação em solidariedade com os palestinianos. 

Isto é muito significativo, dado que o regime marroquino foi um dos últimos a assinar um acordo de normalização com Israel em 2020. As opiniões das massas marroquinas são claramente muito diferentes das da elite dominante. Na Jordânia, vimos manifestantes marcharem em direção à fronteira com a Cisjordânia em apoio dos palestinianos. 

Protestos em massa também eclodiram em Amã, capital da Jordânia. Protestos semelhantes foram vistos no Iraque, bem como no Egito. Alguns estimaram que os protestos que eclodiram na Tunísia são os maiores desde a primavera Árabe em 2011. 

Qualquer governo da região que pareça de alguma forma apoiar Israel, ou mesmo estar próximo dos EUA, corre o risco de ser derrubado pelo seu próprio povo. Esta é precisamente a razão pela qual Abbas, o presidente da Autoridade Palestiniana, juntamente com o rei da Jordânia e o Presidente egípcio, foram forçados a cancelar a sua cimeira com Biden após o bombardeamento do hospital de Gaza.  

Instabilidade económica e revolução 

Para além da raiva em massa e da radicalização que o conflito já está a provocar, existe também o medo real dos efeitos económicos de uma guerra prolongada em Gaza. O Financial Times publicou um artigo, “A guerra Israel-Hamas envia nervosismo através dos mercados de dívida dos vizinhos, que explica que os custos dos empréstimos para a Jordânia e o Egito estão a aumentar à medida que os investidores se tornam mais cautelosos em manter o seu dinheiro nestes países. Isto para não falar da situação no Líbano, que deixou de pagar as suas dívidas há apenas três anos. 

Tudo isto no rescaldo da guerra na Ucrânia, que levou a uma grave crise alimentar devido a interrupções no abastecimento e aumentos de preços de produtos agrícolas básicos. Alguns países do Médio Oriente foram diretamente afetados devido à sua elevada dependência das importações provenientes tanto da Rússia como da Ucrânia. O Líbano é extremamente vulnerável economicamente, e o Egito enfrentava o risco de uma crescente agitação em massa mesmo antes do início do atual conflito em Gaza – o país está fortemente dependente das importações de produtos alimentares, em especial do trigo.  

O que estamos a analisar aqui é o risco real de agitação social e revolução no Egito. Eles tiveram uma prova do que as massas egípcias são capazes de fazer em 2011, e tal movimento está destinado a voltar à medida que as condições dos trabalhadores do Egito continuam a se deteriorar.  

Isso sem falar no impacto nos mercados de energia, que já enfrentavam uma inflação galopante devido à guerra na Ucrânia. Como escreve o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais: 

“O ataque do Hamas a Israel terá repercussões no mercado petrolífero se o conflito se alargar para incluir o Hezbollah ou o Irão. Provavelmente haverá apelos para aumentar a aplicação de sanções às exportações de petróleo iraniano, que já aumentaram nos últimos seis meses. As negociações de normalização entre Arábia Saudita e Israel podem ser suspensas no meio do aprofundamento do conflito israelo-palestino, fechando uma importante avenida de cooperação entre EUA e Arábia Saudita.” 

Os aumentos dos preços da energia e dos alimentos têm sido um fator importante para provocar a luta revolucionária no período passado, particularmente no Médio Oriente, Norte de África e Ásia.  

A situação instável no Líbano e no Egito repete-se em toda a região. A Tunísia enfrenta problemas semelhantes; já para não falar do Iémen, mergulhado numa catástrofe humanitária; juntamente com o Sudão, que está envolvido numa guerra civil entre alas da contrarrevolução militar e uma série de outros países. 

A ameaça do Irão 

As declarações dos líderes do regime iraniano não serviram para acalmar os nervos dos investidores na região. O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Hossein Amirabdollahian, ameaçou uma “expansão das frentes de guerra” se a guerra em Gaza não parar. Acrescentou que “o Irão não pode ficar de braços cruzados a assistir ao desenrolar desta situação”. O Governo iraniano afirmou que o envio de dois porta-aviões pelos EUA para a região é, em si mesmo, uma escalada do conflito – o que de facto… é! 

O Hezbollah é considerado um representante do Irão na região e é fortemente apoiado pelo regime iraniano. Isso explica por que os líderes do Hezbollah ameaçaram atacar posições americanas no Oriente Médio se os EUA se envolverem diretamente no conflito atual. O Times of Israel citou um porta-voz do Hezbollah que disse: “Se os EUA intervierem diretamente, todas as posições dos EUA na região se tornarão alvos legítimos do eixo de resistência e enfrentarão nossos ataques. E nesse dia não haverá linha vermelha.” 

Tudo isso explica por que o secretário de Estado dos EUA, Blinken, foi enviado a correr pelo Oriente Médio reunindo-se com os líderes do Egito, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Israel, Jordânia e Arábia Saudita. O objetivo declarado da sua visita era precisamente evitar que uma guerra mais ampla eclodisse na região. Ele está claramente preocupado com a possibilidade de o Irão e grupos apoiados pelo Irão se envolverem. O facto de, imediatamente após a visita de Blinken, a administração norte-americana ter considerado necessário enviar Biden para conversações diretas com Netanyahu é um indício da gravidade da situação. 

Uma guerra que se alargue para incluir a frente norte e a Cisjordânia – onde até agora 79 palestinianos foram mortos pelas forças de segurança israelitas e alguns por colonos, desde o ataque de 7 de outubro – teria efeitos extremamente desestabilizadores, não só na própria região, mas muito mais além. Conduziria a conflitos internos da Jordânia a Marrocos, arriscando-se à queda de regimes. 

A região continua a ser extremamente importante para a economia mundial. Quase 30% da produção mundial de petróleo está na região, incluindo o segundo maior produtor mundial, a Arábia Saudita. Uma grande quantidade de gás também é produzida aqui. Como foi observado: uma guerra prolongada, especialmente se sugar outros países para o conflito, pode impactar nos preços globais, precisamente num momento em que os preços subiram após o início da guerra na Ucrânia. No período mais recente, os preços começaram a descer um pouco. Mas, hoje, a incerteza reina mais uma vez. 

À medida que o inverno se aproxima na Europa e a procura de gás aumenta, podemos assistir a novos aumentos de preços e a pressão sobre milhões de famílias pode continuar aumentando o clima já crispado que existe em todo o continente. 

Os Estados Unidos andam na corda bamba 

As preocupações do imperialismo norte-americano e dos seus parceiros europeus podem ser vistas na linguagem que utilizam. Inicialmente, tratava-se do “Israel tem o direito de se defender”. Isso continua, claro, mas agora temos avisos sobre “a proteção dos civis”. 

A sua pura hipocrisia fede de alto a baixo. Não estão preocupados com os civis palestinianos. Pelo contrário, estão preocupados com o facto de cenas de sangue e destruição, a barbárie que as forças armadas israelitas são capazes de desencadear à vista do público, poderem desestabilizar toda a região e ameaçar catastroficamente os seus interesses imperialistas na região e, potencialmente, muito para além dela. 

A visita de Biden ao Médio Oriente nunca teve como objetivo ajudar os palestinianos. Pelo contrário, tratava-se, antes de mais, de manifestar solidariedade para com Israel, como ficou demonstrado quando prometeu «… assistência militar adicional, incluindo munições e intercetores para reabastecer o «Iron Dome».” Entretanto, para as vítimas do bombardeamento do Hospital Árabe Al-Ahli, Biden apresentou as suas “condolências”, ao mesmo tempo que usou a sua posição para afirmar que Israel não foi responsável pela explosão. 

O imperialismo norte-americano anda na corda bamba, e qualquer coisa pode levá-los ao abismo. Por um lado, veem como os seus interesses estratégicos fundamentais os obrigam a apoiar Israel. Mas também percebem que não têm controlo total sobre a situação. Não importa o que façam, os EUA receberam um golpe histórico na região, algo que terá repercussões globais. 

Isso explica por que tanto Blinken quanto Biden começaram a fazer gestos verbais de “preocupação” com os civis palestinianos, indicando que Israel deve cumprir o seu “direito legítimo de se defender” de acordo com o chamado “direito internacional”. Blinken fez visitas diplomáticas a vários países para envolver os líderes locais no trabalho de evitar que a guerra se expanda, nas quais discutiu a crescente crise humanitária. Ele levantou a necessidade de assistência humanitária e uma passagem segura para aqueles que desejam deixar Gaza, enquanto Biden pressionou para que a ajuda fosse permitida em Gaza. 

Tudo isso, claro, é mera verborragia. Eles discutem permitir a entrada de míseros 20 camiões de ajuda no enclave sitiado, enquanto prometem 10 bilhões de dólares em ajuda militar a Israel. Se levassem a sério a sua “assistência humanitária”, usariam o seu poder e influência para parar a guerra. Mas essa é a última coisa que vão fazer. Pelo contrário, os EUA acabam de vetar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU para permitir uma “pausa humanitária” na ofensiva de Israel que permitisse a entrada de ajuda em Gaza (com a abstenção do Reino Unido e da Rússia). 

A potência imperial mais poderosa do planeta apoiará Israel no esmagamento dos palestinianos. Mas, ao mesmo tempo, preocupam-se com os efeitos de tudo isto. E têm todos os motivos para se preocupar, pois o mundo está prenhe de revolução, inclusive em casa, onde milhões de jovens estão revoltados com a política imperialista dos EUA e instintivamente simpatizam com os palestinos. A vida de milhões de pessoas tornou-se insuportável. 

Guerra: a continuação da política por outros meios 

As mesmas tensões que preparam a guerra entre as nações, produzem a guerra entre as classes. Foi o impasse do capitalismo a nível mundial que preparou a atual barbárie que enfrentamos. É a classe capitalista que tem interesse em guerras predatórias. Neste caso, temos a classe capitalista de Israel, apoiada pelas classes capitalistas dos Estados Unidos e da Europa, promovendo os seus interesses através da guerra. 

Em 1917, referindo-se à Primeira Guerra Mundial, Lenin colocou a questão de saber “… o que causou essa guerra, que classes a estão a travar e que condições históricas e histórico-económicas lhe deram origem.” 

E explicou que: “A guerra é uma continuação da política por outros meios. Todas as guerras são inseparáveis dos sistemas políticos que as engendram. A política que um determinado Estado, uma dada classe dentro desse Estado, prosseguiu durante muito tempo antes da guerra é inevitavelmente continuada por essa mesma classe durante a guerra, alterando-se apenas a forma de ação.” 

Durante décadas, desde a criação de Israel, a classe dominante sionista tem vindo a tomar cada vez mais território do povo palestiniano. Isto é evidente para qualquer pessoa que dedique algum tempo a estudar um mapa da Cisjordânia. É evidente que a política do Governo israelita em “tempos de paz” tem sido a de espremer sistematicamente os palestinianos. A sua política em tempos de guerra é a mesma. 

Já não há um território palestiniano contínuo de que se possa falar. A Cisjordânia foi destruída pelo número crescente de colonatos judaicos. Em 1972, havia pouco mais de 10.000 colonos espalhados pelo território palestiniano. Desde então, esse número aumentou para cerca de 750.000. 

Voltando às palavras de Lenin: “Isto leva-me à última questão, a de como acabar com a guerra“. E respondeu muito claramente: “Nada além de uma revolução operária em vários países pode derrotar esta guerra [a Primeira Guerra Mundial]. A guerra não é um jogo, é uma coisa terrível que ceifa milhões de vidas e não pode ser terminada facilmente.” 

Hoje, aplica-se o mesmo princípio. Enquanto a classe dominante capitalista sionista estiver em vigor em Israel, e enquanto nos países vizinhos o poder permanecer nas mãos das elites burguesas, a guerra atual não será a última. Enquanto o povo palestiniano permanecer sem pátria, não haverá paz duradoura. Mesmo que Netanyahu, através de uma campanha militar brutal com pesadas baixas, reduza temporariamente a capacidade do Hamas para atacar Israel, a barbárie atual está a acumular um enorme ressentimento entre os palestinianos, em particular entre os jovens, que encontrarão formas de ripostar, e o conflito continuará. 

A única força que pode ajudar os palestinianos a alcançar o seu objetivo histórico de terem uma pátria que posam chamar de sua são as massas da classe trabalhadora e os pobres de todos os países do Médio Oriente. Isso significa uma luta revolucionária internacional para derrubar todos os regimes capitalistas da região, juntamente com as potências imperialistas que os apoiam. Portanto, se queremos parar a guerra, precisamos de retirar do poder aquela classe que beneficia da guerra: os capitalistas de todos os países.