O caso Alexandra Reis

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O ano de 2022 fechou com uma taxa de inflação estimada nos 9,6% (2,7% em dezembro de 2021) e com taxas de juro para aquisição de casa própria nos 2,86% (0,83% em dezembro de 2021). Para a esmagadora maioria dos trabalhadores e pensionistas estes números representaram um brutal agravamento nas suas condições de vida.

Mas nem todos os portugueses sentem a crise. Nos primeiros 9 meses de 2022 as principais empresas cotadas em Bolsa aumentaram exponencialmente os seus lucros, com as energéticas, as papeleiras e retalhistas à cabeça. Esses lucros refletem-se (e bem!) nas contas da luz, do gás ou do supermercado.

E entre os portugueses que não têm sentido a crise estará, naturalmente, Alexandra Reis. Soube-se na véspera do Natal que, a agora ex-secretária de Estado do Tesouro, saíra ao fim de 14 meses do cargo de administradora da TAP com uma indeminização de 500 mil euros em fevereiro passado, tendo atravessado a rua e assumido a presidência da NAV (Navegação Aérea Portuguesa) por nomeação do governo, antes de ser convidada para o Executivo e tomar posse no início de dezembro.

Na TAP Alexandra Reis ganhava cerca de 28 mil euros por mês e, apesar de ter só exercido funções durante 14 meses, aparentemente teve direito a ser compensada por 4 anos de férias não gozadas e que foram acrescentadas ao bolo da indeminização recebida.  Cabe ainda dizer que Alexandra Reis, apesar de “só” receber 500 mil euros, começou por pedir milhão e meio de indemnização.

Em condições ditas “normais”, este tipo de valores seria considerado escandaloso pelo “comum dos mortais” que, se receber o salário mínimo (remuneração de 25% dos trabalhadores), precisaria de mais de 46 anos de trabalho para ganhar tal valor! Mas não vivemos em condições “normais”: há uma crise a desenvolver-se, a generalidade dos portugueses está mais pobre que há um ano e o Estado irá injetar, no total, 3,2 mil milhões de euros numa empresa onde foram aplicados cortes massivos nos salários dos seus trabalhadores e que, quando for privatizada, o será por tuta e meia.

Naturalmente, Alexandra Reis não chegou a aquecer o lugar e teve de apresentar demissão do governo, sendo seguida não pelo seu chefe (o ministro Fernando Medina), mas pelo ministro que tutelava a TAP, Pedro Nuno Santos. São já 10 as demissões num governo que tomou posse há menos de um ano! O caso Alexandra Reis acaba por revelar-se exemplar numa série de registos.

Em primeiro lugar, é sintomático duma casta política que salta de lugar em lugar, de nomeação em nomeação e de tacho em tacho – seja no sector público ou da esfera pública para o sector privado. “Só” em 2022 Alexandra Reis desempenhou 3 cargos. Na sua saída da TAP teve a representá-la a sociedade de advogados do irmão do presidente da república, numa negociação onde, do outro lado, estava a mulher do ministro das finanças – que viria a escolhê-la para a secretaria de Estado do Tesouro.

Em segundo lugar, é indicativo de como o Estado burguês gere as empresas públicas: com incúria, com nepotismo, com opacidade, quase sempre com intenção de, através duma má gestão, tornar inevitável a sua futura privatização. Não basta que uma empresa seja nacionalizada ou conservada no âmbito da gestão pública. Como se vê pelo caso Alexandra Reis, como se verifica por décadas de má gestão, é necessário que os próprios trabalhadores controlem e giram as empresas nacionalizadas e estas operem e produzam de acordo com uma planificação democrática do conjunto a economia.

Finalmente, é indicativo não apenas da falência moral da burguesia portuguesa e dos seus representantes políticos, mas das suas crescentes dificuldades. Dificilmente um governo eleito há menos de um ano com maioria absoluta cairia por causa do caso “Alexandra Reis”. E desengane-se quem pense que alguma vez isso foi sequer cogitado pelos estrategas do Capital: Marcelo Rebel de Sousa foi muito claro : por um lado “estamos numa guerra e numa crise económica financeira” e é uma má altura para “experimentalismos”; por outro, “não é claro que surgisse uma alternativa evidente e forte”.

Com uma Direita esfrangalhada, o governo PS continua no imediato a ser a melhor solução da burguesia portuguesa para gerir a crise. E, não por acaso, o PSD veio a terreiro concordar com as declarações do presidente da república: a última coisa que o Luís Montenegro desejaria era ter de assumir o governo numa conjuntura de crise e a ter de ficar dependente do Chega e das constantes mudanças de humor do seu líder: é bem melhor que o PS se continue a queimar lentamente.

E quanto à vida dos trabalhadores, dos pensionistas e da juventude? Como certa vez disse um dos gangters da Banca: “Ai aguenta, aguenta!” Desde quando é que nós alguma vez fomos do interesse das elites?