Perspectivas Mundiais

Tradução da Esquerda Marxista en PT-BR

“UMA ERA GLOBAL DE REVOLUÇÃO ESTÁ SER PREPARADA”

Este documento foi aprovado, no dia 30 de julho de 2021, pelos delegados no Congresso Mundial da Tendência Marxista Internacional de 2021. Ele fornece nossa análise geral dos principais processos que ocorrem na política mundial, em um momento marcado por crises e turbulências sem precedentes. Com a dinamite nas fundações da economia mundial e a pandemia de Covid-19 ainda lançando uma sombra sobre a situação global, todos os caminhos levam a uma intensificação da luta de classes.

“No geral, a crise está se aprofundando como a boa e velha toupeira que é.” (Marx para Engels, 22 de fevereiro de 1858)

A natureza das perspectivas

O presente documento, que deve ser lido em conjunto com o que produzimos em setembro de 2020, será um pouco diferente dos documentos de perspectivas mundiais que emitimos no passado.

Em períodos anteriores, quando os eventos se moviam em ritmo mais lento, foi possível lidar, pelo menos em suas linhas gerais, com muitos países diferentes. Agora, no entanto, o ritmo dos eventos acelerou a tal ponto que, para lidar com tudo, precisaríamos de um livro inteiro. O propósito das perspectivas não é produzir um catálogo de eventos revolucionários, mas descobrir os processos fundamentais subjacentes.

Como Hegel explicou na Introdução à Filosofia da História:

É, de fato, o desejo de uma visão racional, não a ambição de acumular uma mera pilha de aquisições, que deve ser pressuposto em todos os casos como possuindo a mente do aluno no estudo da ciência”.

Estamos lidando aqui com processos gerais, e só se pode olhar para alguns países que servem para ilustrar com mais clareza aqueles processos nessa etapa. Naturalmente, outros países serão tratados em artigos separados.

Eventos dramáticos

O ano de 2021 começou com eventos dramáticos. A crise do capitalismo mundial está produzindo ondas que se espalham de países e continentes a outros países e continentes. Por todos os lados, há a mesma imagem do caos, do deslocamento econômico e da polarização de classe.

O novo ano apenas começava, e uma turba de extrema-direita invadia o edifício do Capitólio dos EUA, em Washington, a pedido do ex-presidente dos EUA, Donald Trump – dando ao centro do imperialismo ocidental a aparência de um Estado falido.

Esses eventos, em conjunto com os eventos muito maiores, dos protestos Black Lives Matter, no verão passado, mostraram o quanto se tornou profunda a polarização na sociedade norte-americana.

Além disso, grandes protestos na Índia, Colômbia, Chile, Bielorrússia e Rússia demonstraram o mesmo processo: o ressentimento das massas está crescendo e a classe dominante não é capaz de continuar governando como antes.

Uma crise global como nenhuma outra

Essas perspectivas mundiais são diferentes de quaisquer outras com que lidamos no passado. São enormemente complicadas pela pandemia que paira como uma nuvem carregada em todo o mundo, submetendo milhões de pessoas à miséria, ao sofrimento e à morte.

A pandemia ainda está fora de controle. No momento em que  escrevíamos esse texto, já havia mais de 100 milhões de casos de contaminação em todo o mundo, e quase três milhões de mortes. Essas cifras são sem precedentes fora de uma guerra mundial. E continuam a subir de forma inexorável.

Esse flagelo terrível tem seus efeitos mais devastadores na África, Ásia e América Latina. Esses são países pobres. Mas também afetou alguns dos países mais ricos.

Nos EUA, há 30 milhões de casos e o número de mortes ultrapassou a marca dos 500 mil. E a Grã-Bretanha está entre os países com maior número de mortos per capita da população: mais de 4 milhões de casos e bem mais de 100 mil mortes.

A crise atual, portanto, não é como uma crise econômica comum. É, literalmente, uma situação de vida ou morte para milhões de pessoas. Muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas com medidas adequadas desde o início.

O capitalismo não pode resolver o problema

O capitalismo não pode resolver o problema; ele próprio é o problema.

Esta pandemia serve para expor as divisões intoleráveis entre ricos e pobres. Ela revelou as profundas linhas de falha que dividem a sociedade. A linha entre os que estão condenados a adoecer e morrer e os que não estão.

Ela desnudou o desperdício do capitalismo, seu caos e ineficiência, e está preparando a luta de classes em todos os países.

Os políticos burgueses gostam de usar analogias militares para descrever a presente situação. Dizem que estamos em guerra com um inimigo invisível, no caso, esse terrível vírus. E concluem que todas as classes e partidos devem se unir por trás do governo existente. Mas um enorme abismo separa as palavras das ações.

O caso de uma economia planejada e do planejamento internacional é inquestionável. A crise é mundial. O vírus não respeita fronteiras ou controles de fronteira. A situação exige uma resposta internacional através da mobilização de todos os conhecimentos científicos e de todos os recursos do planeta, para que seja coordenado um plano global genuíno de ação.De um ponto de vista puramente racional, a produção de vacinas deveria ser aumentada para eliminar a Covid-19, mas a motivação do lucro permanece como uma barreira / Imagem: Lisa Ferdinando

Em vez disso, temos o espetáculo pouco edificante da disputa entre a Grã-Bretanha e a União Europeia sobre vacinas escassas, enquanto alguns dos países mais pobres têm acesso virtualmente negado a qualquer vacina.

Mas por que há escassez de vacinas? O problema da produção de vacinas – para citar apenas um exemplo – é um reflexo da contradição entre as necessidades urgentes da sociedade e os mecanismos da economia de mercado.

Se estivéssemos realmente em guerra contra o vírus, os governos mobilizariam todos os seus recursos para essa tarefa. De um ponto de vista puramente racional, a melhor política seria a de aumentar a produção de vacinas o mais rápido possível.

A capacidade de produção precisa ser expandida, o que só pode ser feito com a instalação de novas fábricas. Mas os grandes fabricantes privados de vacinas não têm interesse em expandir a produção massivamente porque ficariam em pior situação financeira se o fizessem.

Se aumentassem a capacidade de produção, o mundo inteiro seria abastecido em seis meses, mas as instalações recém-construídas ficariam vazias imediatamente depois. Os lucros seriam, então, muito menores em comparação ao cenário atual, onde as plantas existentes produzem, em sua plena capacidade, para os anos vindouros.

Mais um obstáculo à produção em massa da vacina é a recusa da Big Pharma em renunciar aos direitos de propriedade intelectual sobre “suas próprias” vacinas (na maioria dos casos desenvolvidas com grandes quantidades de financiamentos do Estado) para que outras empresas fossem capazes de produzi-las de forma mais barata.

As empresas farmacêuticas estão fabricando dezenas de bilhões em lucros, mas os problemas com a produção e a oferta significam escassez por todos os lados. Nesse ínterim, milhões de vidas estão em risco.

Vidas de trabalhadores em risco

Em sua pressa para recuperar e voltar a movimentar a produção (e, portanto, os lucros), os políticos e os capitalistas recorrem a atalhos. Os trabalhadores são enviados de volta aos locais de trabalho lotados e sem proteção adequada. Isso equivale a uma sentença de morte para muitos desses trabalhadores e suas famílias.

Todas as esperanças dos políticos burgueses se baseavam nas novas vacinas. Mas a distribuição das vacinas foi malfeita e o fracasso em controlar a propagação do vírus – o que aumenta o risco de resistência das cepas em desenvolvimento às novas vacinas – tem graves implicações, não apenas para vidas humanas e para a saúde, mas também para a economia.

Crise econômica

A atual crise econômica é a mais severa em 300 anos, segundo o Banco da Inglaterra. Em 2020, o equivalente a 255 milhões de empregos foi perdido em todo o mundo, quatro vezes mais do que em 2009.

As chamadas economias emergentes estão sendo arrastadas para baixo com as demais. Índia, Brasil, Rússia e Turquia estão em crise. A economia da Coreia do Sul encolheu no ano passado, pela primeira vez, em 22 anos. Isso aconteceu apesar dos subsídios do Estado no valor de cerca de US $ 283 bilhões. Na África do Sul, o desemprego atingiu 32,5% e o PIB diminuiu 7,2%, em 2020. Esta é uma contração maior do que em 1931 durante a Grande Depressão, e isso mesmo gastando o equivalente a 10% do PIB em um pacote de estímulo fiscal.

A crise está levando milhões de pessoas cada vez mais profundamente à pobreza. Em janeiro de 2021, o Banco Mundial estimou que 90 milhões de pessoas serão empurradas para a pobreza extrema. The Economist, em 26 de setembro de 2020, escreveu:

“As Nações Unidas são ainda mais pessimistas. Definem as pessoas como pobres se não têm acesso a coisas como água potável, eletricidade, alimentos e escolas suficientes para seus filhos.

“Trabalhando com pesquisadores da Universidade de Oxford, avaliam que a pandemia poderia jogar 490 milhões de pessoas, em 70 países, na pobreza, revertendo quase uma década de ganhos”.

O programa Mundial de Alimentação das Nações Unidas (PMA) colocou a questão nos seguintes termos: “Em 79 países com presença operacional do PMA e onde os dados estão disponíveis, estima-se que acima de 270 milhões de pessoas padecerão de aguda insegurança alimentar ou estarão em alto risco em 2021, um aumento sem precedentes de 82% em comparação aos níveis pré-pandemia”.

Por si só, isso dá uma ideia global da escala da crise.Os analistas burgueses descreveram esta crise como a pior em 300 anos, mais profunda ainda do que a Grande Depressão / Imagem: domínio público

Além dos efeitos da pandemia, a crise ecológica global provavelmente agravará essa situação, sustentando a pobreza e a insegurança alimentar. A exploração capitalista do meio ambiente ameaça colocar os principais sistemas ecológicos à beira do colapso. Vimos um aumento nos conflitos por recursos hídricos escassos e destruição ambiental que, inevitavelmente, levará à instabilidade social e à migração climática maciça.

A instabilidade geral em todo o mundo está organicamente ligada à crescente pobreza. É causa e efeito. É a causa subjacente mais fundamental de muitas das guerras, e guerras civis que estão ocorrendo. A Etiópia é apenas um exemplo disso.

A Etiópia era apresentada como modelo. No período entre 2004 e 2014, sua economia estava crescendo 11% ao ano, e era vista como um país para se investir. Agora foi lançada, na turbulência com o surto de conflitos na província de Tigray, onde 3 milhões de pessoas precisam de alívio alimentar urgente.

Esse não é um caso isolado. A lista de países afetados por guerras no período passado é muito longa, e o catálogo de sofrimentos humanos é terrível:

Afeganistão: dois milhões de mortes; Iémen: 100 mil mortes; as guerras mexicanas das drogas levaram a mais de 250 mil mortes; a guerra contra os curdos na Turquia, 45 mil mortes; na Somália, 500 mil mortes; no Iraque, pelo menos um milhão de mortes; no Sudão do Sul, cerca de 400 mil mortes.

Na Síria, as Nações Unidas estimaram o número de mortes em 400 mil, mas isso parece muito baixo. A cifra real pode nunca ser conhecida, mas, com certeza, será de pelo menos 600 mil. Nas terríveis guerras civis no Congo, provavelmente mais de quatro milhões de pessoas morreram. Mas ali, igualmente, ninguém sabe a cifra real. Mais recentemente, tivemos o conflito em Nagorno-Karabakh.

E assim a lista continua indefinidamente. Tais coisas não são mais consideradas adequadas para as primeiras páginas dos jornais. Mas expressam muito claramente o que Lenin disse certa vez: o capitalismo é um horror sem fim. A continuação da existência do capitalismo ameaça criar as condições da barbárie em um país após o outro.

Uma crise do regime

Do ponto de vista marxista, o estudo da economia não é uma questão acadêmica abstrata. Tem um efeito profundo no desenvolvimento da consciência de todas as classes.

Para onde quer que olhemos agora, há uma crise, não apenas uma crise econômica, mas uma crise do regime. Há indícios claros de que a crise é tão severa, tão profunda, que a classe dominante está perdendo o controle dos instrumentos tradicionais que usava no passado para governar a sociedade.

Como resultado, a classe dominante se vê cada vez mais incapaz de controlar os eventos. Isso é particularmente claro no caso dos EUA. Mas também se aplica a muitos outros países. É suficiente mencionar os nomes de Trump, Boris Johnson e Bolsonaro para sublinhar o ponto.

EUA

Os EUA agora ocupam um lugar central nas perspectivas mundiais. Por muito tempo, a revolução na nação mais rica e poderosa do planeta parecia uma perspectiva muito distante. Mas os EUA foram duramente atingidos pela crise econômica mundial e agora tudo virou de cabeça para baixo.

68 milhões de americanos caíram no desemprego durante a pandemia e, como sempre, são os mais pobres e vulneráveis, especialmente as pessoas negras, que mais sofrem. O flagelo do desemprego recai mais pesadamente sobre os ombros da juventude. Um quarto dos menores de 25 anos perdeu o emprego. Seu futuro foi repentinamente tirado. O sonho americano se tornou o pesadelo americano.

Essa mudança dramática forçou muitas pessoas, jovens e velhos, a reconsiderar pontos de vista que antes consideravam sacrossantos e questionar a própria natureza da sociedade em que vivem. A rápida ascensão de Bernie Sanders em uma extremidade do espectro político, e de Donald Trump, no outro, acendem a luz vermelha piscando para a classe dominante. Esse tipo de coisa não deveria acontecer!

Alarmada com o perigo representado por esta situação, a classe dominante foi compelida a tomar medidas emergenciais. Lembremo-nos de que, de acordo com o dogma oficial dos economistas burgueses, o Estado não deveria desempenhar qualquer papel na vida econômica.

Mas, diante do desastre iminente, a classe dominante foi forçada a jogar todas as teorias econômicas aceitas na lata de lixo. O mesmo Estado que, de acordo com a teoria do livre mercado, deve desempenhar pouco ou nenhum papel na vida econômica, tornou-se agora a única coisa que sustenta o sistema capitalista.

Em todos os países, começando pelos EUA, a chamada economia de mercado livre está realmente em um sistema de suporte de vida, como um paciente com coronavírus. A maior parte do dinheiro distribuído pelo Estado foi direto para o bolso dos ricos. Mas a classe dominante temia as consequências políticas de mais um resgate corporativo. Eles, portanto, concederam subsídios a todos os residentes e aumentaram fortemente o subsídio ao desemprego. Isso amorteceu o impacto da crise nas camadas mais pobres. Em algum momento, esses apoios serão reduzidos ou totalmente retirados.

Temos o paradoxo da mais terrível pobreza no país mais rico do mundo coexistindo com a mais obscena riqueza e luxo. Em outubro de 2020, mais de um, em cada cinco lares americanos, não tinha dinheiro suficiente para comprar comida. Os bancos de alimentos estão proliferando.

Desigualdade e polarização

Os níveis de desigualdade quebraram todos os recordes. O abismo entre ricos e pobres se transformou em um abismo intransponível. Em 2020, a riqueza dos bilionários do mundo cresceu US $ 3,9 trilhões. O índice Nasdaq 100 está 40% mais alto do que antes da pandemia. As ações globais listadas, em fevereiro de 2021, tinham-se valorizado em US $ 24 trilhões desde março de 2020.

O executivo-chefe médio de uma empresa S&P 500 ganha 357 vezes mais do que o trabalhador médio não supervisor. A proporção era de cerca de 20 vezes em meados da década de 1960. Ainda era de 28 vezes no final do mandato de Ronald Reagan, em 1989.

Para citar apenas um exemplo, Jeff Bezos agora ganha mais dinheiro por segundo do que um trabalhador americano típico ganha em uma semana. Isso leva a América de volta aos tempos dos barões ladrões capitalistas que Theodore Roosevelt denunciou antes da Primeira Guerra Mundial.

E isso tem um efeito. Toda a demagogia sobre o ‘interesse nacional’, de que “devemos nos unir para combater o vírus”, de que “estamos todos no mesmo barco”, fica exposta como a mais vil das hipocrisias.

As massas estão preparadas para fazer sacrifícios sob certas circunstâncias. Em tempos de guerra, as pessoas estão preparadas para se unir na luta contra um inimigo comum, isso é verdade. Elas estão preparadas, pelo menos temporariamente, para aceitar padrões de vida mais baixos e, em certa medida, restrições aos direitos democráticos.

Mas o abismo que separa os que têm dos que não têm está aprofundando a polarização social e política, e criando um clima explosivo na sociedade. Mina todos os esforços para criar uma sensação de unidade e solidariedade nacional, que é a principal linha de defesa da classe dominante.

As estatísticas do Federal Reserve mostram que o décimo mais rico da população dos Estados Unidos tinha um patrimônio líquido de US $ 80,7 trilhões no final de 2020. Isso significa 375% do PIB, eu que está muito acima dos níveis históricos.

Um imposto de 5% sobre isso renderia US $ 4 trilhões, ou um quinto do PIB. Isso pagaria por todos os custos da pandemia. Mas os ricos barões ladrões não têm intenção de compartilhar sua pilhagem. A maioria deles (incluindo Donald J Trump) mostra uma forte aversão a pagar qualquer imposto, quanto mais de 5%.

A única solução seria a expropriação dos banqueiros e capitalistas. Essa ideia inevitavelmente ganhará cada vez mais apoio, varrendo os preconceitos remanescentes contra o socialismo e o comunismo, mesmo entre aquelas camadas de trabalhadores que foram enganados pela demagogia de Trump.

Isso já está causando preocupação entre os estrategistas sérios do capital. Mary Callaghan Erdoes, chefe de gestão de ativos e patrimônios do JP Morgan, chegou à conclusão inevitável: “Vai-se ter um risco muito alto de extremismo decorrente disso. Temos que encontrar uma maneira de nos adaptar; caso contrário, estaremos em uma situação muito perigosa.”

O ataque ao Capitólio

O ataque ao Capitólio em 6 de janeiro foi uma indicação gráfica de que o que os EUA agora enfrentam não é uma crise de governo, mas uma crise do próprio regime.

Esses eventos não foram um golpe ou uma insurreição, mas claramente expuseram a raiva crua que existe nas profundezas da sociedade e o surgimento de profundas fissuras no Estado. No fundo, o que eles indicam é que a polarização da sociedade atingiu um ponto crítico. As instituições da democracia burguesa estão sendo testadas até a destruição.O ano de 2021 iniciou com eventos dramáticos. O assalto ao edifício do Capitólio fez os EUA, a mais poderosa nação imperialista, aparecer como um Estado falido / Imagem: Blink O’Fanaye, Flickr

Há um ódio ardente contra os ricos e poderosos, contra os banqueiros, Wall Street e o establishment de Washington em geral (“o pântano”). Esse ódio foi habilmente canalizado pelo demagogo de direita, Donald Trump.

Evidentemente, o próprio Trump é apenas o crocodilo mais astuto e voraz do pântano. Ele está apenas buscando seus próprios interesses. Mas, ao fazer isso, ele prejudicou seriamente os interesses da classe dominante como um todo. Ele brincou com fogo e conjurou forças que nem ele, nem qualquer outra pessoa, pode controlar.

Por palavras e ações, Trump estava destruindo a legitimidade das instituições burguesas e criando uma enorme instabilidade. É por isso que a classe dominante e seus representantes políticos em todos os lugares estão horrorizados com sua conduta.

impeachment

Os democratas tentaram o impeachment de Trump, acusando-o de organizar uma insurreição. Mas eles previsivelmente falharam em conseguir que o Senado o condenasse, o que o impediria de se candidatar a um cargo público no futuro.

A maioria dos senadores republicanos teria ficado muito feliz em fazer isso. Eles odeiam e temem esse arrivista político. E eles sabiam muito bem quem estava por trás dos acontecimentos de 6 de janeiro. O líder republicano no Senado, Mitch McConnell, pronunciou um veredicto condenatório sobre o ex-presidente, após votar para absolvê-lo.

Na realidade, ele e os outros senadores republicanos estavam apavorados com a reação dos seguidores furiosos de Trump se dessem aquele passo fatídico. Eles decidiram que a discrição é a melhor parte da coragem e, fechando seus narizes, votaram por sua inocência.

Mas se isso foi uma tentativa de insurreição, foi muito pobre. Em vez de uma insurreição, parecia mais a um motim em grande escala. A multidão de apoiadores furiosos de Trump irrompeu no Capitólio com a óbvia conivência de, pelo menos, alguns dos guardas. Mas, tendo obtido facilmente a posse do Santo dos Santos da democracia burguesa dos Estados Unidos, eles não tinham a menor ideia do que fazer com ele.

A turba desorganizada e sem líder circulava sem rumo, destruindo tudo o que não gostava e gritando ameaças sanguinárias contra a Democrata Nancy Pelosi, o vice-presidente Republicano, Mike Pence, e Mitch McConnell, a quem acusaram de trair Trump. Enquanto isso, o comandante-em-chefe dos insurretos desaparecia convenientemente.

Se a história se repete primeiro como uma tragédia e depois como uma farsa, essa foi uma farsa das mais puras. No final, ninguém foi enforcado ou mandado para a guilhotina. Cansados de tanto gritar, os “rebeldes” voltaram silenciosamente para suas casas ou retiraram-se para o bar mais próximo para  embebedar-se e se gabar de suas façanhas corajosas, não deixando nada mais ameaçador do que uma pilha de lixo e alguns egos machucados.

No entanto, do ponto de vista da classe dominante, abriu-se um precedente perigoso para o futuro. Ray Dalio, fundador do maior fundo de hedge do mundo, BridgeWater Associates, disse o seguinte: “Estamos à beira de uma terrível guerra civil. Os EUA estão em um ponto crítico a partir do qual podem ir, de uma tensão interna gerenciável, a uma revolução”. O ataque ao Capitólio foi um sério aviso para a classe dominante. E isso, sem dúvida, terá consequências. Apesar de uma enxurrada de hostilidade da mídia, 45% dos Republicanos registrados acharam que foi justificado.

Mas isso deve ser comparado ao fato muito mais significativo de que 54% de todos os americanos pensarem que o incêndio da delegacia de polícia de Minneapolis foi justificado. E 10% de toda a população participaram dos protestos Black Lives Matter – cerca de 20 mil vezes mais do que aqueles que invadiram o Capitólio. Tudo isso mostra o rápido crescimento da polarização social e política nos Estados Unidos.

As revoltas espontâneas que varreram os EUA de costa a costa, após o assassinato de George Floyd, e os eventos sem paralelo que precederam e acompanharam as eleições presidenciais, marcaram uma virada em toda a situação.

Mudanças na consciência

Os estúpidos liberais e reformistas naturalmente não entendem nada do que está acontecendo. Eles só veem a superfície dos eventos, sem entender as correntes mais profundas que estão fluindo fortemente sob a superfície e impulsionando as ondas.

Eles gritam constantemente sobre o fascismo, o que significa tudo o que não gostam ou temem. Sobre a verdadeira natureza do fascismo, eles não sabem absolutamente nada. É óbvio. Mas ao insistir constantemente no “perigo para a democracia” (com o que se referem à democracia burguesa formal), eles semeiam confusão e preparam o terreno para a colaboração de classes sob a bandeira do “mal menor”. Seu apoio a Joe Biden nos EUA é um exemplo muito claro disso.

O que temos que levar em conta é que a base de Trump tem um caráter muito heterogêneo e contraditório. Ela contém uma ala burguesa, chefiada pelo próprio Trump, e muitos reacionários pequeno-burgueses, fanáticos religiosos, e elementos abertamente fascistas.

Mas devemos lembrar que Trump recebeu 74 milhões de votos na última eleição e muitos de seus eleitores eram pessoas da classe trabalhadora que votaram anteriormente em Obama, mas estão desiludidos com os Democratas. Quando são entrevistados, dizem: “Washington não se importa conosco! Nós somos as pessoas esquecidas!Os dois principais partidos dos Estados Unidos estão em profunda crise / Imagem: Socialist Revolution (CMI EUA)

Há oscilações violentas para a esquerda e para a direita. No entanto, a natureza abomina o vácuo e, por causa da completa falência dos reformistas, incluindo os reformistas de esquerda, esse clima de raiva e frustração foi capitalizado por demagogos de direita, os chamados populistas. Nos EUA temos o fenômeno do Trumpismo; no Brasil, vimos a ascensão de Bolsonaro.

Mas o apelo dos demagogos de direita logo evapora quando entra em contato com a realidade do governo, como  amplamente demonstra o caso de Bolsonaro. É verdade que Trump manteve o apoio de milhões, mesmo assim foi removido.

Foi interessante notar que, por volta da data do ataque ao Capitólio, o senador do Missouri Josh Hawley disse: “Os republicanos em Washington vão ter muita dificuldade em digerir isso…, mas o futuro é claro: devemos ser um partido da classe trabalhadora, não um partido de Wall Street” (The Guardian).

Lenin disse que a história conhece todos os tipos de transformações peculiares. Os marxistas devem ser capazes de distinguir o que é progressista do que é reacionário. Devemos entender que, com todos esses eventos em embrião, temos os contornos dos desenvolvimentos revolucionários nos EUA, no futuro.

Claro, este senador republicano reacionário não tem intenção de organizar um partido genuíno da classe trabalhadora nos EUA, e tal partido não surgirá de uma divisão de direita dos Republicanos. Mas as convulsões do antigo sistema bipartidário são, sem dúvida, o prenúncio de algo inteiramente novo: o surgimento de um terceiro partido que desafiará, tanto os Republicanos, quanto os Democratas.

Tal partido terá, a princípio, um caráter extremamente confuso e heterogêneo. Mas o elemento anticapitalista deve, mais cedo ou mais tarde, predominar. É aí que reside a verdadeira ameaça ao sistema. Quando as massas começam a intervir diretamente na política, quando decidem que é chegado o momento de tomar seu destino em suas próprias mãos, isso, por si só, é um sintoma de desenvolvimentos revolucionários iminentes.

Os estrategistas sérios do capital entendem as implicações perigosas na turbulência atual muito mais do que os pequenos burgueses impressionistas e em pânico. Em 30 de dezembro de 2020, o Financial Times publicou um artigo muito interessante, assinado pelo conselho editorial.

O artigo pintou um quadro muito diferente do processo, e para onde ele iria, e as conclusões que tirou de tudo isso foram muito alarmantes do ponto de vista burguês:

“Os grupos deixados para trás pela mudança econômica estão cada vez mais concluindo que os responsáveis não se importam com sua situação – ou pior, manipularam a economia para seu próprio benefício contra os que estão à margem.

“Lentamente, mas com segurança, isso está colocando o capitalismo e a democracia em tensão um com o outro. Desde a crise financeira global, esse sentimento de traição alimentou uma reação política contra a globalização e as instituições da democracia liberal.

“O populismo de direita pode prosperar nessa reação enquanto mantém os mercados capitalistas em seu lugar.

“Mas como não pode cumprir suas promessas aos economicamente frustrados, é apenas uma questão de tempo até que os forcados se levantem contra o próprio capitalismo e contra a riqueza daqueles que se beneficiam dele.”

Este artigo mostra uma compreensão perfeita da dinâmica da luta de classes. Até a linguagem é significativa. Armar-se com forcados sugere uma analogia com a Revolução Francesa ou com a Revolta dos Camponeses de 1381, quando os camponeses tomaram Londres.

Os autores dessas linhas entendem perfeitamente bem que uma onda na direção do chamado populismo de direita pode ser apenas o primeiro estágio antes de uma explosão revolucionária. As oscilações violentas da opinião pública para a direita podem muito facilmente ser a preparação de oscilações ainda mais violentas para a esquerda pelas massas descontentes que procuram uma saída da crise.

Esta é uma previsão altamente perspicaz de como os eventos desenvolver-se-ão no período vindouro. E não só nos EUA. Essa tremenda volatilidade pode ser observada em muitos países, senão em todos os países. Abaixo da superfície, um clima de raiva, amargura e ressentimento contra a ordem estabelecida está se desenvolvendo.

Colapso do centro

As instituições da democracia burguesa baseiam-se no pressuposto de que o abismo entre ricos e pobres pode ser disfarçado e contido dentro de limites administráveis. Mas isso não é mais o caso.

O crescimento contínuo da desigualdade de classe criou um nível de polarização social não visto há décadas. Está testando os mecanismos tradicionais da democracia burguesa até seus próprios limites, e além desses limites.

O antagonismo entre ricos e pobres está crescendo de forma mais intensa a cada dia. Ele fornece um ímpeto irresistível às forças centrífugas que estão separando as classes. Essa é precisamente a razão para o colapso do chamado Centro.

Isso está causando crescente alarme na classe dominante, que sente o poder escapar de suas mãos. Os partidos do establishment, em todos os lugares, são identificados pelas massas com a austeridade e os ataques aos padrões de vida.

Há um clima de raiva na sociedade. Esse sentimento se expressa no colapso da confiança nas instituições oficiais, nos partidos, nos governos, nos líderes políticos, nos banqueiros, nas pessoas ricas, na polícia, no judiciário, nas leis existentes, na tradição, na religião e na moralidade do sistema existente. As pessoas não acreditam mais no que dizem os jornais e a TV. Eles comparam a enorme diferença entre o que é dito e o que acontece, e percebem que estamos ouvindo um monte de mentiras.

Nem sempre foi assim. No passado, a maioria das pessoas não prestava muita atenção à política. Isso também vale para os trabalhadores. As conversas nos locais de trabalho geralmente eram sobre futebol, filmes, programas de televisão. A política raramente era mencionada, exceto, talvez, na época das eleições.

Agora, tudo isso mudou. As massas estão começando a se interessar pela política, porque estão começando a perceber que ela afeta diretamente suas vidas e as vidas de suas famílias. Isso, em si, é uma expressão de um movimento na direção da revolução.

No passado, se as pessoas se preocupassem em votar nas eleições, normalmente votariam no mesmo partido em que seus pais e avós votaram. Agora, no entanto, as eleições se tornaram extremamente imprevisíveis. O humor do eleitorado é raivoso, desconfiado e volátil, oscilando violentamente da esquerda para a direita, e da direita para a esquerda.

As perspectivas para o governo Biden

Os estrategistas do capital reconhecem os perigos colossais dessa polarização e lutam desesperadamente para reconstruir o “Centro”. Mas, objetivamente, não há base real para isso. Na pessoa de Joe Biden, eles estão apoiados em uma palha quebrada.

Wall Street agora deposita suas esperanças no governo Biden e em sua campanha de vacinação. Mas Biden, agora, preside uma profunda crise econômica e política em uma nação dividida e em declínio.

Ele está sendo pressionado pelo sistema para aumentar a intervenção do Estado na economia e não perdeu tempo em revelar seus planos de um pacote de estímulo de US $ 1,9 trilhão para a economia dos Estados Unidos. Se adicionarmos o pacote de US $ 900 bilhões previamente acordado pelo Congresso e os US $ 3 trilhões em alívio aprovado no início da pandemia, tudo isso resulta em uma montanha de dívidas. A classe dominante está tentando, desesperadamente, restaurar a estabilidade política.

O professor Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard, colocou desta forma: “Eu simpatizo com o que Biden está fazendo … Sim, há algum risco de que tenhamos instabilidade econômica no futuro, mas temos instabilidade política agora.” Tudo isso está preparando uma grande crise no futuro.

Enquanto isso, milhões de cidadãos insatisfeitos nem mesmo acreditam que Biden venceu as eleições. O que quer que ele faça será errado para eles. Por outro lado, as esperanças exageradas de seus muitos apoiadores vão evaporar como uma gota d’água em uma chapa quente de fogão, quando se dissipar a sensação inicial de alívio com a partida de Trump. E embora ele vá, inevitavelmente, desfrutar de uma lua de mel por um tempo, uma enorme desilusão se seguirá, preparando o caminho para novas convulsões, turbulência e instabilidade.

América Latina

A América Latina é uma das regiões do mundo mais atingidas pela Covid-19, do ponto de vista da saúde pública, mas também do ponto de vista da crise econômica.

O PIB da região caiu cerca de 7,7% em 2020, o colapso mais profundo em 120 anos. Isso veio na esteira de uma década de estagnação, com crescimento médio anual de 0,3% entre 2014 e 2019. Não se espera que a região recupere seu PIB pré-crise até 2024. Os níveis de pobreza extrema voltaram ao que eram em 1990.

Isso já estava produzindo turbulência social e política antes do início da pandemia. Na América Latina, os levantes de 2019 (Equador, Chile), que faziam parte de uma tendência mundial (Argélia, Sudão, Iraque, Líbano…), foram temporariamente contidos pelo início da pandemia que varreu o continente com consequências devastadoras.

O Brasil teve um dos maiores índices de mortalidade do mundo e o Peru também foi duramente atingido. No Equador, caixões se amontoavam em frente aos necrotérios superlotados e corpos eram deixados sem vigilância nas ruas em alguns lugares.

No entanto, no segundo semestre de 2020, vimos um retorno aos movimentos insurrecionais de massa. Em setembro de 2020, houve uma explosão de indignação na Colômbia contra um assassinato policial, que resultou no incêndio de 40 delegacias de polícia. No Peru, o movimento de massas derrubou dois governos. E os protestos na Guatemala fizeram com que o prédio do parlamento fosse incendiado. Isso continuou em 2021, e com importantes consequências políticas. Na Colômbia, o movimento ressurgiu com um poderoso movimento de Greve Nacional, que reduziu ao mínimo a base social de apoio ao governo Duque. No Peru, tivemos a inesperada eleição do professor sindicalista Pedro Castillo nas eleições presidenciais. Da mesma forma, no Chile, tivemos a derrota eleitoral da direita e a ascensão de candidatos vinculados ao levante de 2019, assim como do PC e da Frente Ampla, nas eleições para a assembleia constituinte, prefeitos e governadores regionais.

No Brasil, onde esquerdistas e sectários fizeram grande barulho sobre a suposta vitória do “fascismo”, o apoio a Bolsonaro está ruindo. O slogan originalmente lançado por nossos camaradas brasileiros “Fora Bolsonaro”, que foi rejeitado como utópico pelas esquerdas, agora tem aceitação geral.

O “homem forte” Bolsonaro é tão fraco, que não conseguiu nem mesmo lançar seu próprio partido. Embora tenha tentado desesperadamente fazer isso, ele fracassou miseravelmente, até mesmo em conseguir assinaturas suficientes para registrá-lo.O Brasil tem uma das maiores taxas de mortalidade do mundo. Embora grande parte da esquerda no Brasil imaginasse que Bolsonaro representasse um regime reacionário impermeável, os eventos mostraram como seu controle do poder é realmente fraco / Imagem: CMI

O problema não é a força de Bolsonaro, mas a fraqueza da esquerda. O PT, que antes contava com o apoio esmagador dos trabalhadores, perdeu massivamente nas últimas eleições. Também aqui se trata, não de dificuldades objetivas, mas da fraqueza do fator subjetivo.

Os acontecimentos revolucionários e insurrecionais que ocorreram em diversos países latino-americanos e a chegada ao poder de dirigentes “progressistas” com o apoio de operários e camponeses (AMLO no México, Arce na Bolívia, Castillo no Peru etc.) servem como uma refutação a todos aqueles (incluindo os sectários) que argumentaram que havia uma “onda conservadora” na América Latina. O capitalismo aqui é muito mais fraco do que nos países capitalistas desenvolvidos, os efeitos da pandemia foram devastadores em termos econômicos e de saúde e as massas estão ganhando músculos nas lutas impressionantes que vimos recentemente. Por todas essas razões, é muito provável que a América Latina seja um dos cenários dos próximos eventos revolucionários.

Cuba, entretanto, enfrenta uma grande crise econômica, desencadeada pela pandemia e agravada pelas sanções e medidas econômicas de Trump, nenhuma das quais foi revertida por Biden. A economia da ilha caiu 11% em 2020.

Isso levou a liderança a implementar uma série de medidas do mercado capitalista, que foram discutidas por 10 anos, mas nunca totalmente implementadas, incluindo a unificação da moeda, as relações de mercado entre empresas do setor estatal, o fechamento de empresas do setor estatal que não são “lucrativas”, o levantamento de subsídios sobre o preço de alimentos básicos etc.

Essas medidas já estão tendo um impacto no aumento da desigualdade e gerando descontentamento. É um ponto de inflexão no processo de restauração capitalista.

Esses fatores econômicos são a base objetiva para os protestos de 11 de julho. Esses foram os maiores protestos em Cuba desde o “maleconazo” de 1994, e ocorreram em um momento de profunda crise econômica e com um governo que não tem a mesma autoridade que Fidel Castro tinha naquela época.

O movimento teve um componente genuíno de protesto contra a escassez e as privações que a classe trabalhadora está sofrendo. Houve, no entanto, outro componente que respondeu a uma campanha constante de propaganda nas redes sociais e de provocações nas ruas por elementos abertamente contrarrevolucionários, que já durava meses.

Os manifestantes, que somavam cerca de 2 mil em Havana, eram compostos de diferentes camadas: pobres de áreas da classe trabalhadora gravemente afetadas pela crise econômica e pelas medidas tomadas pela burocracia; lúmpens e elementos criminosos; elementos pró-capitalistas pequeno-burgueses que floresceram nos últimos 10 anos de reformas de mercado; artistas, intelectuais e jovens preocupados com a censura e os direitos democráticos em abstrato.

É preciso esclarecer que os protestos se desenrolaram sob os lemas “Pátria e Vida” (“Pátria y vida”), “Abaixo a ditadura” e “Abaixo o comunismo”, claramente de caráter contrarrevolucionário. Os problemas e dificuldades são reais e genuínos; há elementos confusos participando, mas no meio de toda a confusão, são os elementos contrarrevolucionários que dominam esses protestos. São organizados, motivados e têm objetivos claros. Portanto, é necessário se opor a eles e defender a revolução. Se aqueles que promovem esses protestos, junto aos seus mentores em Washington, alcançassem seu objetivo – a derrubada do governo – isso inevitavelmente aceleraria o processo de restauração capitalista e levaria Cuba de volta ao seu antigo status de colônia de fato do imperialismo dos Estados Unidos. Os problemas econômicos e de saúde sofridos pela classe trabalhadora cubana não seriam resolvidos, pelo contrário, seriam agravados. Basta olhar para o Brasil de Bolsonaro ou para o vizinho Haiti para se convencer disso. A derrota da revolução cubana teria um impacto negativo na consciência dos trabalhadores em todo o continente e em todo o mundo.

Na luta que se abre, a Corrente Marxista Internacional se posiciona incondicionalmente pela defesa da revolução cubana. O primeiro ponto que devemos assinalar é que nos opomos totalmente ao bloqueio do imperialismo norte-americano e fazemos campanha contra ele. No entanto, nossa defesa incondicional da revolução não significa que sejamos acríticos. Devemos explicar claramente que os métodos da burocracia são, em grande parte, responsáveis pela criação da situação atual. O planejamento burocrático leva à má administração, ineficiência, desperdício e indolência. A imposição burocrática e a arbitrariedade levam à alienação da juventude. Medidas pró-capitalistas levam à diferenciação social e à pobreza.

O questionamento generalizado da direção surgiu entre muitos trabalhadores e jovens que se consideram revolucionários. Devemos explicar que a única forma eficaz de defender a revolução é colocando a classe trabalhadora no comando. Nosso modelo deve ser a democracia operária da Comuna de Paris e o Estado e a Revolução de Lenin. Defendemos a discussão política mais ampla e livre entre os revolucionários. A mídia estatal deve estar aberta a todos os matizes de opinião revolucionária. Em todos os locais de trabalho, os próprios trabalhadores devem ter plenos poderes para reorganizar a produção, a fim de torná-la mais eficiente. Além disso, os privilégios da burocracia (lojas especiais, acesso preferencial a produtos básicos) devem ser abolidos. Todos os funcionários estatais devem ser eleitos e destituíveis a qualquer momento.

O destino da revolução cubana será, definitivamente, decidido na esfera da luta de classes internacional. Os revolucionários cubanos devem adotar uma posição socialista revolucionária internacionalista, em oposição a uma baseada na geopolítica e na diplomacia. Defendemos a democracia dos trabalhadores e o socialismo internacional.

Europa

O PIB real caiu 7% nos estados membros da UE em 2020. Este foi o maior declínio na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Os números oficiais mostram que 13,2 milhões estão desempregados, mas descontando os esquemas de licença, o verdadeiro número de desemprego está perto de 12,6% (cerca de 20 milhões). Outros 30 milhões estão faltando nos números oficiais, descritos como “desemprego oculto”.

A comissão da UE estropeou o lançamento da vacina de Covid-19, o que resultou em grande escassez em toda a Europa. A Dinamarca, inicialmente, recebeu apenas 40 mil doses, quando esperava 300 mil. A Holanda, de início, não recebeu nenhuma.

O fracasso do programa de vacinas segue-se ao desastre da crise da falta de EPIs do ano passado. Quando a Itália enfrentava o pior de sua crise, a solidariedade europeia foi totalmente esquecida. Era cada um por si. O programa de vacinas foi uma tentativa de restabelecer a solidariedade dentro da União Europeia, mas falhou.

Para piorar ainda mais as coisas, a escalada de medidas restritivas (bloqueios, etc.) para enfrentar a pandemia do coronavírus por 21 países da zona do euro desacelerou significativamente a atividade econômica, de modo que o bloco enfrentou uma recessão de duplo mergulho.

Enquanto, na primavera passada, quando a pandemia ocorreu pela primeira vez, a economia da zona do euro sofreu um choque profundo e repentino, o novo surto de infecções está se arrastando por mais tempo, causando um declínio mais lento, mas ainda mais debilitante na atividade econômica.

Viagens, varejo, hotelaria, confiança empresarial e gastos do consumidor foram atingidos nas primeiras semanas de 2021. Isso ameaça produzir uma onda retardada de falências, a menos que os governos e os bancos centrais continuem a apoiar medidas para impulsionar a economia.

Como resultado, os economistas preveem que uma contração estimada da produção na zona do euro entre 1,8% e 2,3% nos últimos três meses de 2020, seria seguida por outra queda no primeiro trimestre de 2021, em muitas das principais economias do bloco, incluindo Alemanha e Itália. Isso pode deixar a zona do euro em sua segunda recessão, definida como dois trimestres consecutivos de crescimento negativo, em menos de dois anos.

Na sequência do Brexit e de Trump, que nunca se preocupou em disfarçar seu desprezo por todas as coisas europeias, a burguesia europeia sente que não pode mais contar com os aliados tradicionais. A tola tentativa de Emmanuel Macron de se insinuar com Trump, foi um fracasso espetacular.

Trump deixou bem claro que via a Europa como o principal inimigo, enquanto a Rússia era apenas um “competidor”. Ele acompanhou suas palavras com ações. Suas políticas protecionistas foram dirigidas, tanto contra a Europa, quanto contra a China. E ele manteve essa atitude beligerante até os últimos dias de sua administração. Na véspera de Ano Novo, os EUA anunciaram um novo aumento nas tarifas da UE sobre peças de aviões e vinhos da França e Alemanha.

Biden está procurando renovar os laços com a Europa. Ele voltou a comprometer os Estados Unidos com o multilateralismo, incluindo o retorno à OMS e ao acordo climático de Paris. Ele também apoiou um novo Diretor-Geral da OMC. A atitude em relação ao acordo nuclear iraniano também mudou. Todos esses são passos bem-vindos para os europeus, desesperados por uma mudança de direção da Casa Branca. Trump rotula essa nova estratégia de “América por último”.

No entanto, existem conflitos entre os dois lados que são muito mais difíceis de resolver. Os europeus não estão convencidos da estratégia dos EUA para a China. Eles também desejam tirar proveito da guerra comercial dos Estados Unidos com a China para seus próprios fins. O novo Tratado de Investimento celebrado entre a China e a UE nas últimas semanas da presidência de Trump foi amplamente visto como uma afronta a Joe Biden, que o novo presidente foi forçado a engolir.

Há mais disputas de longa data para resolver: a disputa entre a Airbus e a Boeing sobre a ajuda estatal está latente há décadas, sem nenhuma solução à vista. O oleoduto Nord Stream 2 também está causando uma grande cisão entre os EUA e a Alemanha, com os EUA insistindo que o oleoduto fortalecerá a influência da Rússia na Europa. A recém-descoberta afeição entre Biden e os europeus será testada nos próximos meses, enquanto os dois blocos tentam reanimar suas exportações na crise pós-pandêmica.

A Alemanha tem sido a âncora da Europa, uma ilha de estabilidade em águas frequentemente tempestuosas. Angela Merkel era vista como um par de mãos seguras no comando do país mais importante da Europa. Mas, com a pandemia, vieram novos problemas.

A Europa já experimentava tensões crescentes entre os Estados-Membros após a crise de 2008. O Brexit foi um ponto de inflexão nessa dinâmica, assim como a crise pandêmica e o nacionalismo, que prevaleceu no enfrentamento da crise da saúde. A profunda crise global exercerá enorme pressão neste sentido: a UE deve competir com os outros blocos imperialistas, enquanto, ao mesmo tempo, as diferentes nações que a compõem competirão entre si para exportar suas próprias crises.

Os capitalistas alemães reconheceram que tiveram que mudar seus métodos para tentar conter as tendências centrífugas crescentes na UE. Essa tendência foi fortalecida ainda mais quando a pandemia golpeou. No outono passado, a Alemanha foi obrigada a subscrever um empréstimo de € 750 bilhões para o fundo de recuperação europeu, a fim de manter a UE unida. Esse pacote substancial proporcionará alívio temporário à UE, mas é apenas um subsídio único. Os apelos para ir mais longe nessa direção foram firmemente bloqueados pela Alemanha. No final, nenhum dos problemas foi resolvido.

Merkel teve que ampliar o confinamento na Alemanha. Sua coalizão está enfrentando taxas de vacinação lentas e suprimentos inadequados. O clima nacional mudou de autocongratulatório para taciturno. O Financial Times comentou que “o cenário político, antes da eleição de setembro, parece mais fragmentado e volátil.”A pandemia expôs mais uma vez todas as contradições da UE. Também na Alemanha, que já foi considerada um bastião da estabilidade, divisões estão se abrindo no partido no poder / Imagem: EU2017EE, Flickr

Na França, o governo Macron está totalmente desacreditado, com uma taxa de desaprovação de 60%: uma das piores, desde os protestos dos gilets jaunes. A taxa oficial de desemprego é de 9%, mas. na realidade, é muito mais alta.

O ‘Grande debate nacional’ não fez nada para restaurar o apoio público ao governo, nem a demissão do primeiro-ministro, Edouard Phillipe. E as repetidas tentativas de Macron de fazer o papel de um “grande estadista” no plano internacional evocam nada além de risos sarcásticos em todos os níveis.

Grã-Bretanha

Não muito tempo atrás, a Grã-Bretanha era, provavelmente, o país mais estável da Europa. Agora ela se tornou, supostamente, o mais instável.

A crise atual expôs cruelmente a fraqueza do capitalismo britânico. A economia do Reino Unido caiu 9,9% em 2020, duas vezes mais que a Alemanha, e três vezes mais que os Estados Unidos. Agora, diante dos efeitos da pandemia e da calamidade do Brexit, uma nova recessão é inevitável.

Brexit foi um ato de pura loucura por parte do Partido Conservador, e que agora escapou do controle da classe dominante. O governo é controlado por um palhaço de circo que, por sua vez, é controlado por chauvinistas reacionários dementes.

Apesar de ter conquistado uma vitória decisiva na eleição de dezembro de 2019, o partido Conservador está cada vez mais desacreditado, principalmente por seu manejo incorreto da pandemia, com mais mortes do que em qualquer outro país da Europa. O número de mortes (claramente subestimado nos números oficiais) está entre os mais altos de qualquer país, em proporção ao tamanho da população. No entanto, os conservadores têm resistido continuamente a tomar as medidas necessárias até que sejam forçados a fazê-lo, devido à gravidade da situação.

Essas pessoas não estão interessadas na vida e na saúde da população. Tampouco se preocupam com o estado lamentável do Serviço Nacional de Saúde (NHS, em suas siglas inglesas), situação essa que provocaram com décadas de cortes. Eles são motivados apenas por uma coisa: lucros.

Os conservadores desejam manter a produção a todo custo. É por isso que eles estavam determinados a reabrir as escolas. Isso levou, nos primeiros dias de janeiro, a um protesto em massa e a uma reunião online de 400 mil professores. A ameaça de greve forçou o governo a fechar as escolas.

No entanto, apesar da impopularidade do governo, o Partido Trabalhista e sua liderança de direita ainda estão atrasados em relação aos Conservadores. Não há uma oposição real por parte do Trabalhismo.

A renúncia de Corbyn e McDonnell após a derrota do Partido Trabalhista, em dezembro de 2019, foi um sério golpe para a esquerda e uma dádiva para a direita. A esquerda teve todas as oportunidades para transformar o Partido Trabalhista. Eles tiveram o apoio total da base. Isso significaria realizar um expurgo completo da ala direita do Partido Trabalhista Parlamentar e da burocracia. Mas eles se afastaram dessa meta e se recusaram a apoiar o lema da impugnação dos parlamentares que os marxistas e outros defenderam, e que tinha amplo apoio na base.

Em última análise, os esquerdistas têm medo de levar a luta até as últimas consequências, o que significaria um rompimento total com a direita. Mas a direita não mostra tanta gentileza com a esquerda. Incentivados por sua fraqueza, eles realizaram um expurgo da esquerda – incluindo a suspensão do próprio Corbyn. Essa fraqueza não é apenas uma questão moral. É uma questão política. É uma característica orgânica do reformismo de esquerda.

As grandes empresas agora estão dando as cartas no Partido Trabalhista. Keir Starmer fala, não como o líder da oposição, mas como um membro servil do gabinete de Johnson. Ele espera que Johnson aja, antes de dizer “eu também”.

Mas agora a direita foi longe demais. Por suas ações, a ala direita está empurrando a esquerda a lutar. O cenário está armado para uma batalha no Partido Trabalhista.

Aconteça o que acontecer, a tendência marxista pode ter ganhos, e muitas novas portas serão abertas para ela. A arte da política é aproveitar todas as oportunidades que surgem.

Itália

A Itália continua sendo o elo mais fraco na cadeia do capitalismo europeu. Sua fraqueza crônica foi revelada pela crise atual. Incapaz de competir com economias mais poderosas como a Alemanha, está ficando cada vez mais para trás e afundando mais e mais em dívidas.

Seu sistema bancário está constantemente à beira de um colapso que pode arrastar para baixo o resto da Europa. A UE é obrigada a apoiá-lo exatamente por esse motivo, mas o faz praguejando em voz baixa.

Os banqueiros alemães, em particular, estão cada vez mais impacientes e, até recentemente, exigiam a adoção de medidas sérias para cortar gastos do governo e atacar os padrões de vida. Quer dizer, empurravam a Itália para o abismo. O tom deles mudou um pouco desde que a pandemia os forçou a pedir ajuda ao Estado. Assim que a pandemia acabar, eles voltarão à austeridade com força total.

Para navegar através da crise atual, a classe dominante italiana exige um governo forte. Mas nenhum governo forte é possível na Itália. O regime político está podre até o âmago. A falta de confiança nos políticos é expressa por uma crise permanente de governo. Uma coalizão instável segue a outra, enquanto, no fundo, nada muda. As massas estão desesperadas e sua busca por uma saída, e é expressa por violentas viradas para a direita e para a esquerda.

A crise foi enormemente exacerbada pela pandemia, que atingiu a Itália mais cedo e com mais força do que qualquer outro lugar. No momento em que este artigo foi escrito, o número de mortes causadas pela Covid-19 estava se aproximando da marca de 100 mil.

A classe dominante esperava manter a coalizão de centro-esquerda o máximo de tempo possível, para evitar uma explosão social. Mas isso se tornou inviável à medida que as opções políticas iam se esgotando. Sentindo o fogo sob o traseiro, o partido de Renzi, Italia Viva, tirou seus três ministros da coalizão de Conte devido aos fracassos no trato da pandemia de Covid-19, levando ao colapso o governo e abrindo a porta para a formação do governo Draghi.

O Presidente da República interveio e, em vez de convocar eleições antecipadas, convidou Draghi, o ex-governador do Banco Central Europeu, para formar um governo. Aqui temos mais um exemplo de um “tecnocrata” sendo imposto ao país como primeiro-ministro, eleito por ninguém.

A falência da “centro-esquerda” abriu uma oportunidade para formações de extrema direita como o partido dos Irmãos da Itália. Eles ficaram de fora da coalizão que apoia Draghi, em primeiro lugar, porque não são necessários e, em segundo lugar, porque esperam obter ganhos à direita às custas da Lega, que agora está no governo.

Mais cedo ou mais tarde, porém, os jogos parlamentares serão substituídos por uma batalha aberta entre as classes. Nenhuma estabilidade é possível com base no sistema atual. Na Itália, não existe um partido operário de massas. Mas o humor das massas fica cada vez mais irritadiço e impaciente a cada dia. A ação militante dos trabalhadores no primeiro mês da pandemia foi um alerta do que está por vir.

Os repetidos fracassos dos governos estão, inevitavelmente, levando a uma explosão da luta de classes. Em última análise, as questões não serão resolvidas no parlamento, e aproxima-se, rapidamente, o dia em que o centro de gravidade passará de um parlamento desacreditado para as fábricas e as ruas.

Rússia

A mesma turbulência e volatilidade podem ser vistas em todos os lugares. Na Rússia, o retorno ao país e a prisão de Alexei Navalny foram o sinal para uma onda de protestos em todo o país. Houve manifestações de 40 mil pessoas em Moscou, 10 mil em Petersburgo e milhares mais em 110 outras cidades, incluindo Vladivostok e Khabarovsk.

Esses protestos ainda não estavam na mesma escala massiva que vimos na Bielorrússia antes, quando milhões foram às ruas para derrubar Lukashenko. Mas essas foram grandes manifestações em um contexto russo. Foram muito heterogêneas em sua composição, com muitas pessoas de classe média, intelectuais, liberais, mas também um número crescente de trabalhadores, especialmente de trabalhadores jovens.

A polícia reagiu com repressão. Brigas de rua ocorreram em muitas cidades. As pessoas romperam as barricadas, com cerca de 40 policiais feridos. Várias milhares de pessoas foram detidas.

O que isso representa? Os protestos foram, em parte, um reflexo da indignação com a prisão de Navalny. Mas a questão de Navalny é apenas um elemento nessa situação, e não, necessariamente, o mais importante.

Alexei Navalny é retratado, na mídia ocidental, como um defensor heroico da democracia. Na verdade, ele é um oportunista ambicioso com um passado político duvidoso. Em retrospecto, ele será visto como uma figura acidental.

Mas figuras acidentais também desempenham um papel na história em certos momentos. Assim como na química, é necessário um catalisador para provocar uma reação particular no processo revolucionário. Um ponto de referência é necessário para atuar como um detonador, para inflamar o descontentamento acumulado das massas. A natureza precisa desse catalisador. Nesse caso, foi a prisão de Navalny. Mas poderia ter sido qualquer outro fator.

Queda dos padrões de vida

O principal não é o acidente por meio do qual a necessidade se expressa, mas a própria necessidade. A verdadeira causa dessa revolta foi a raiva acumulada da população com a queda dos padrões de vida, a crise econômica e os abusos de um regime corrupto e repressivo.

Tudo indica que o apoio de Putin está caindo. A certa altura, as pesquisas regularmente lhe davam um apoio superior a 70%. Na época da anexação da Crimeia, esse percentual subiu para mais de 80%. Mas agora ele oscila em torno de 63% e, em seu ponto mais baixo, estava apenas um pouco acima dos 50%. Esses números devem ter causado grande alarme no Kremlin.

No passado, Putin podia orgulhar-se de algum sucesso no campo econômico, mas não agora. Entre 2013 e 2018, antes da pandemia, o crescimento econômico anual foi de 0,7%, ou seja, estava basicamente estagnado. No final de 2020, houve um crescimento negativo de cerca de 5%. O desemprego está crescendo rapidamente e muitas famílias estão perdendo suas casas.

Por um tempo, notadamente após a anexação da Crimeia, que tem uma maioria de russos, Putin jogou a carta nacionalista. Isso aumentou sua popularidade, mas os vapores inebriantes do chauvinismo agora foram amplamente dissipados e o estoque de credibilidade de Putin foi seriamente prejudicado por sua reforma previdenciária.

Há uma indignação crescente com a corrupção monstruosa e o estilo de vida luxuoso da elite governante. Dois dias após sua prisão, Navalny divulgou um vídeo, visto por milhões, expondo a corrupção pessoal de Putin, mostrando um grande palácio que ele ergueu no Mar Negro. Tudo isso está criando um clima explosivo.

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