Construir o Partido 

“A crise da humanidade resume-se à crise da direção revolucionária” – com estas palavras Leon Trotsky punha em ênfase a contradição (e as dificuldades daí decorrentes) entre as necessidades objetivas do movimento, as pequenas forças do marxismo no seio da classe trabalhadora e das suas organizações históricas e a necessidade de derrubar o capitalismo – um sistema ineficaz, injusto e iníquo. 

E porquê a classe trabalhadora? Não endeusamos os trabalhadores: mas com todas as suas limitações e preconceitos, com toda a apatia e conservadorismo que manifestam em períodos ditos “normais”, em épocas de estabilidade, a verdade, porém, é que só os trabalhadores pelo seu número, pelo seu peso, pela sua condição, pela posição que ocupam nas relações sociais de produção moderna poderão derrubar o capitalismo e criar uma nova organização económica, social e política na sociedade, aliando-se e liderando outras classes e grupos sociais oprimidos, rumo à emancipação da humanidade da propriedade privada e do Estado nacional. 

Porém, a classe trabalhadora não chega automaticamente a conclusões revolucionárias, pelo contrário, passa por toda uma série de etapas e mudanças constantes, reflexo dos fluxos e refluxos da luta de classes. Se assim não fosse, a nossa tarefa seria fácil. Mas não é assim que a História se desenvolve. 

Após um longo período histórico, a classe trabalhadora chegou à conclusão sobre a necessidade de se organizar. Sem organização, a classe trabalhadora não é mais do que carne para canhão na exploração capitalista… mediante a criação de organizações, tanto de carácter sindical como, a um nível superior, político, a classe trabalhadora começa a expressar-se como classe, com uma identidade independente. Nas palavras de Marx, passa de ser uma “classe em si” para ser uma “classe em si e para si”. 

Este desenvolvimento produziu-se através dum largo período histórico através de todo o tipo de lutas, nas quais participaram não só a camada de ativistas mais ou menos conscientes, mas também as “massas sem experiência política” que, geralmente, despertam para a vida política em face a grandes acontecimentos. 

Com os grandes acontecimentos históricos, a classe trabalhadora começou a criar organizações para a defesa dos seus interesses. Estas organizações – cooperativas, sindicatos e partidos – representaram o germe duma nova sociedade dentro da velha. Servem para mobilizar, organizar, formar e educar a classe trabalhadora. 

Contudo, estas organizações sendo criadas no seio da sociedade capitalista, estão sujeitas às pressões da burguesia, sobretudo em épocas de auge económico, que inevitavelmente produzem deformações burocráticas.  

E porquê? Porque os trabalhadores não se põem a lutar só porque sim. Em períodos em que a burguesia possa temporariamente conceder reformas e cedências, os trabalhadores procurarão uma saída individual, cerrando os punhos, baixando a cabeça e trabalhando “duro”. 

A tendência da burocracia das organizações operárias em cair sob influência das ideias burguesas, sempre se multiplica por mil quando diminui a pressão, o controle e o ativismo da classe trabalhadora. Isto produz uma degeneração na direção do movimento que, por sua vez, potencia o aumento da apatia, ceticismo e desprezo de amplas camadas da classe trabalhadora para com as suas próprias organizações. Esta é uma lei histórica que pode ser facilmente demonstrável. 

Marx & Engels 

Um partido revolucionário, para um marxista, é em primeiro lugar PROGRAMA, MÉTODO, IDEIAS e TRADIÇÕES, e só depois uma organização, um aparato (que sem dúvida tem a sua importância), para levar estas ideias aos trabalhadores. 

O partido marxista, desde o seu início, deve basear-se na teoria e no programa, que são o resumo da experiência histórica geral do proletariado. Sem isto não seríamos nada! O começo passa sempre pelo lento e doloroso trabalho de formação de quadros, que formarão o esqueleto e a estrutura do partido durante toda a sua vida. 

O passo seguinte, todavia, ainda é mais complicado: como chegar às massas de trabalhadores e jovens com o nosso programa e as nossas ideias? Não é uma tarefa fácil. Para os sectários isto não representa nenhum tipo de problema: bastam-lhes meia-dúzias de citações de Lenin e a proclamação grandiloquente dum partido revolucionário “independente” para que os trabalhadores adiram. 

Para um marxista, a necessidade de contruir um partido revolucionário é o ABC da luta de classes. Porém, o abecedário é composto por muitas outras letras. Marx e Engels sempre partiram do movimento tal como ele era, aplicando as táticas mais hábeis para se conectarem com o movimento autêntico das massas, começando na Nova Gazeta Renana, que foi um modelo de agitação revolucionária, combinando a luta por consignas democráticas mais avançadas com uma defesa implacável do ponto de vista independente de classe do proletariado. 

Após a derrota das revoluções de 1848-50, Marx e Engels dedicaram -se a desenvolver a e aprofundar a teoria do socialismo, formando quadros, por vezes, um a um… Ao contrário de outros “exilados”, colaboraram ativamente com o movimento cartista e com os sindicatos na Grã-Bretanha. Em 1864 formariam a Associação Internacional dos Trabalhadores (a Iª Internacional), cuja tarefa histórica foi estabelecer os princípios fundamentais, o programa, a estratégia e as táticas do marxismo revolucionário à escala internacional – ainda que a AIT fosse uma organização extremamente heterogénea que agrupava sindicalistas reformistas ingleses, proudhonistas franceses, epígonos italianos de Mazzini e anarquistas diversos. Combinando a firmeza de princípios com a flexibilidade tática, Marx e Engels conseguiram forjar uma maioria.   

Mas se a AIT lançou as bases teóricas do movimento, nunca conseguiu, todavia, ser uma autêntica Internacional de massas. A derrota da Comuna de Paris em 1871 teve um efeito desmoralizante e desorientador sobre as débeis forças da Iª Internacional e esta acabou dissolvida cerca de um ano mais tarde, para impedir que em seu nome os sectários “fizessem as ações mais estúpidas e maldosas” – como explicou Engels. Apesar de internacionalistas, Marx e Engels, durante um período, estiveram sem uma organização internacional. 

A IIª Internacional 

Ao contrário da AIT, a IIª Internacional começou por ser uma organização de massas que uniu e organizou milhões de trabalhadores. Teve partidos e sindicatos de massas na Alemanha, em França, Grã-Bretanha, Itália, Bélgica… Além do mais, defendeu (pelo menos em palavras), os princípios do marxismo revolucionário. Parecia, portanto, que o futuro do socialismo estava assegurado… 

Contudo, a IIª Internacional foi formada durante um largo período de expansão capitalista (1871-1914), o que deixou uma marca na mentalidade dos dirigentes dos partidos e sindicatos da IIª Internacional. Por geral, este foi um período de reformas, não de revoluções, o qual foi plasmado no adágio de Bernstein: “o movimento é tudo, o objetivo final não é nada”. 

De acordo com a opinião dos líderes da época, paulatinamente os sindicatos e partidos operários iriam tornar-se mais fortes, com mais aderentes, com mais votos, ganhando conquistas aqui e acolá, propondo reformas, pressionando os parlamentos a legislar, estabelecendo coligações com a burguesia liberal e avançando com legislação progressista. Gradual e pacificamente chegar-se-ia ao socialismo. 

Antes de 1914 Lenin, Trotsky ou Rosa Luxemburgo, eram todos eles social-democratas lutando por uma genuína política marxista no seio da IIª Internacional. Porém, o único que entendeu plenamente o papel do partido revolucionário foi Lenin.  

Quando em Agosto de 1914 rebentou a Iª Guerra Mundial, apesar de todas as juras em contrário, mal soou o primeiro tiro, os diversos partidos da IIª Internacional soçobraram perante as pressões das respetivas burguesias nacionais e apoiaram, em cada país, o “esforço de guerra”, os mútuos sacrifícios e matança de trabalhadores no altar das rivalidades imperialistas.  Essa capitulação política foi um importante ponto de inflexão.  

A IIIª Internacional 

A guerra primeiro e o sucesso da revolução russa depois, foram os grandes acontecimentos que lançaram as bases para a criação da IIIª Internacional a partir de cisões ocorridas no seio dos velhos partidos sociais-democratas.  A IIIª Internacional (Comitern) ergueu-se a um nível superior às suas antecessoras, defendendo um claro programa revolucionário (como a AIT) e tendo uma base militante de milhões (como a IIª Internacional). 

Infelizmente, a maioria das direções dos novos partidos comunistas eram jovens e inexperientes, tendo cometido bastantes erros (principalmente de carácter esquerdista) na vaga revolucionária que se seguiu à grande guerra. 

Ao contrário de Lenin, na sua luta contra a burocracia do SPD (partido social-democrata alemão) Rosa Luxemburgo colocou uma enorme ênfase na ação espontânea das massas. Este ponto de vista tinha uma séria debilidade: embora a ação espontânea das massas seja um elemento fundamental em todas as revoluções, estas ocorrem num período limitado de tempo e, ou se assegura uma mudança revolucionária na sociedade, ou a classe dominante sufocará a revolução. A rapidez dos acontecimentos não permite que os trabalhadores aprendam “espontaneamente” todas as lições através da experiência, da prova e do erro. Há muita pouca margem de erro em pleno processo revolucionário, como o demonstrou o fracasso da revolução alemã em 1918-23. Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht eram gigantes, mas mesmo empenhando toda a autoridade política que possuíam, viram-se (por exemplo) derrotados no Iº congresso Espartaquista sob o ponto da participação (ou não!) dos revolucionários no processo eleitoral… O assassinato dos dois viria depois a dificultar sobremaneira o amadurecimento político dos comunistas alemães… 

Já Lenin, por sua vez, criou previamente uma sólida organização de quadros que, embora também tenha hesitado, tergiversado e errado no curso da luta de classes, soube organizar e dirigir a triunfante revolução de outubro. 

Por isso mesmo, no 2º congresso do Comitern, Lenin e Trotsky lançaram uma luta contra a “doença infantil” do esquerdismo, que se revelava então a maior ameaça ao incipiente e jovem movimento comunista internacional. O manifesto do conclave, redigido por Trotsky não podia ser mais claro: 

“Levando a cabo uma luta sem quartel contra o reformismo nos sindicatos e contra o cretinismo parlamentar e o carreirismo, a Internacional Comunista condena ao mesmo tempo todos os apelos sectários para o abandono das organizações sindicais que agrupam milhões ou o virar de costas às instituições parlamentares ou municipais.” 

Lenin na obra O esquerdismo, a doença infantil do comunismo explicava: 

“Se queres ajudar as «massas» e ganhar o apoio e a simpatia das «massas» não deves temer as dificuldades e as provocações, insultos e perseguições por parte dos «dirigentes» (…) mas deves em qualquer caso trabalhar em qualquer sítio onde estejam as massas. Tens de ser capaz de qualquer sacrifício, de superar os maiores obstáculos, para poderes fazer propaganda e agitação sistematicamente, perseverantemente e persistentemente nessas sociedades e associações, inclusive nas mais reacionárias – onde estejam as massas proletárias ou semiproletárias.” 

Foi então aplicada a tática da Frente Única que poderia ser sintetizada na fórmula “marchar juntos, golpear separados”. Naqueles países (que eram quase todos..) onde as forças comunistas fossem minoritárias, a tática da “Frente Única” pressupunha que os revolucionários lutassem lado a lado com os demais trabalhadores (também com aqueles que pertencessem a outros partidos e grupos) num combate para defender os interesses básicos e mais imediatos da classe, mas, ao mesmo tempo, afirmando os princípios, os métodos e o programa político para alcançar os fins últimos do movimento, ganhando assim pela luta concreta, pela experiência prática e pela agitação revolucionária, a maioria dos trabalhadores para as posições comunistas. 

Durante algum tempo foi possível obter avanços consideráveis, mas a degeneração estalinista na URSS iria causar estragos irreparáveis nas direções ainda politicamente imaturas dos demais partidos do Comitern. 

O Estalinismo 

Ao contrário do que Marx e Engels perspetivaram, a revolução operária não começou por triunfar num dos mais avançados países capitalistas do mundo, mas num país relativamente atrasado onde o proletariado era uma minoria social. 

A Rússia sofrera ainda a destruição e mortandade de anos de guerra mundial e, após o triunfo da revolução, passou por anos de guerra civil, intervenção militar estrangeira e boicote internacional. Tudo isto agudizou as dificuldades económicas nos primeiros anos da revolução e reduziu a vida e dinamismo democrático dos sovietes, pelo cansaço, alheamento e necessidade das massas trabalhadoras em lutar pela subsistência diária, em detrimento da condução política da nova sociedade. 

Disto resultou a formação duma burocracia que (pelo grau de instrução, especialização técnica ou status político) paulatinamente se foi separando da classe trabalhadora, gerindo em seu nome e em seu lugar as indústrias, as empresas, os serviços, os sovietes, o Estado.  Lenine afirmava que a forma de evitar a burocratização era garantir que todos se tornariam burocratas por turno. Dado o atraso da sociedade russa, dado o seu isolamento internacional, dada as vicissitudes da guerra civil e da intervenção estrangeira, não foi possível que “todos fossem burocratas por turno”. 

Pelo contrário, a burocracia, os especialistas necessários à administração das indústrias, das empresas e do Estado, sendo recrutados entre os antigos servidores do czarismo ou cooptados entre os melhores quadros bolcheviques, começaram a perpetuar-se nos lugares de poder e a separar-se da fiscalização, do controlo e das próprias condições materiais de existência das massas, cada vez mais afastadas da tomada de decisões. 

“As condições materiais de existência determinam a consciência social”. A burocracia emergente, cuja condição material progressivamente se separava da existência quotidiana dos trabalhadores que pretendia representar, tinha os seus interesses e desígnios próprios: permanecer na liderança da sociedade e do Estado e recolher o poder, rendimento e prestígio daí decorrentes. 

E sob essa perspetiva valeria a pena arriscar esse poder, esse rendimento e esse prestígio pela revolução mundial? Ou conviria mais à burocracia nascente chegar a um entendimento com a burguesia internacional que permitisse a construção do “socialismo num só país” na URSS, mesmo que a expensas da revolução mundial? A política externa é sempre o prolongamento da política doméstica e a emergente burocracia soviética iria tornar-se numa força contrarrevolucionária, também no plano internacional. 

Contudo a, degenerescência burocrática da revolução de Outubro não sucedeu de um dia para o outro. Todos os zig zags, durante os anos 20 e princípios dos anos 30, da burocracia soviética (interna e externamente) demonstram como não se tratou dum processo retilíneo, mas a chegada ao poder de Hitler ao poder na Alemanha em 1933 constituiu um importante ponto de inflexão. 

A derrota da classe trabalhadora alemã foi resultado direto das políticas erráticas do Comitern, como equiparar a social-democracia ao fascismo. Mas essa derrota histórica não produziu qualquer convulsão nos vários partidos comunistas cujas direções tinham sido já seduzidas e doutrinadas pela burocracia soviética. Durante um tempo, os dirigentes Estalinistas ainda proclamaram: “depois de Hitler será a nossa vez”. Rapidamente, porém, a bazófia deu lugar ao “realismo” reformista e da hostilidade à social-democracia passaram à diluição da vanguarda comunista na “Frente Popular”, da “classe contra classe”, passaram à colaboração entre as classes.  

O Apelo à construção da IVª Internacional 

Diante destes espantosos eventos, Trotsky chegou à conclusão que uma Internacional incapaz de reagir e de aprender com uma derrota desse calibre estava efetivamente morta. Chamou, portanto, à criação duma nova Internacional, nas vésperas da IIª guerra mundial.  

Embora as fragilidades desta IVª Internacional fossem acentuadas com o assassinato de Trotsky em 1940, foi o desenlace da guerra e o papel que nela teve a União Soviética, bem como a estabilização e recuperação capitalista do pós-guerra (com o prestimoso auxílio da social-democracia e do estalinismo), que determinaram as correlações de força entre as classes nas décadas subsequentes e o isolamento e silenciamento do apelo de Trotsky. 

Malgrado a degenerescência estalinista, durante um tempo a nacionalização dos meios de produção e a planificação económica permitiram à URSS um crescimento prodigioso; primeiro nos anos 30 quando todo o mundo capitalista estava mergulhado na sua maior crise e depois quando após a IIª guerra mundial rapidamente se reconstruiu, guindando-se à categoria de superpotência e colocando o primeiro homem em órbita.  

A burocracia estalinista detinha então enorme prestígio e autoridade junto dos sectores mais combativos da classe trabalhadora. Esses prestígio e autoridade permitiram aos estalinistas amainar a onda revolucionária que efetivamente percorreu toda a Europa e mundo colonial no imediato pós-guerra. Quanto à Europa de Leste, e de acordo com a divisão da Europa acordada em Ialta, os estalinistas tomaram o controlo e edificaram Estados operários deformados à imagem e semelhança da URSS. 

Claro que nunca deixaram de existir contradições e conflitos entre a burocracia soviética e a burguesia internacional, mas essas fricções foram sempre circunscritas a palcos secundários e, sobretudo, evitando-se uma dinâmica revolucionária e de democracia operária que pudesse contagiar os próprios trabalhadores soviéticos a agir contra os seus usurpadores! Na verdade, as revoluções cubana ou chinesa (por exemplo) triunfaram apesar das políticas de Moscovo. 

Por outro lado, como referido e ao contrário do que se esperava (e curiosamente Trotsky não pusera de completamente de lado a hipótese deste cenário…), o pós-guerra não trouxe consigo uma nova crise geral do capitalismo, antes, porém, inaugurou todo um período geral de expansão económica que permitiu garantir a paz social na Europa e Estados Unidos, resgatando o prestígio da social-democracia junto de amplas camadas da classe trabalhadora. 

Foi este quadro adverso às pequenas e isoladas forças do marxismo revolucionário que moldariam o destino da IVª Internacional no pós-guerra. 

A Tendência Marxista Internacional 

A origens da TMI podem ser encontradas em meados dos anos 30 do séc. XX quando uma mão-cheia de revolucionários emigrou para a Grã-Bretanha, provenientes da África do Sul onde, durante anos tinham tentado difundir as ideais do marxismo e organizar os trabalhadores negros, em particular no Laundry Workers Unions. Contudo, era na Europa com a ascensão do nazismo ou a revolução espanhola que se jogava o destino da classe trabalhadora mundial e para aí decidiram partir. 

Uma vez chegados, estes jovens entusiastas rapidamente entraram em choque com a atuação formalista e rotineira dos velhos dirigentes, cujo estatuto e prestígio pessoal se viu melindrado. Engels uma vez dissera que, por vezes, uma cisão pode ser algo saudável. Os métodos antigos tinham-se tornado num obstáculo ao crescimento e foi assim que Ted Grant e outros camaradas criaram a Workers International League.  

De início eram apenas nove, mas rapidamente cresceram. Com grande esforço adquiriram uma máquina de impressão em segunda mão com o qual começaram a produzir um jornal, diversos flyers e brochuras, entre as quais o documento Lessons of Spain de Trotsky, cujo prefácio escrito por Grant e Lee mereceu-lhes uma elogiosa carta de congratulações do próprio Trotsky, não obstante de, à data, a WIL ser apenas um grupo simpatizante da IV Internacional. 

Os anos seguintes foram de crescimento, fruto não apenas do espírito militante, mas sobretudo da posição correta que tiveram durante a guerra. Ao contrário do Partido Comunista da Grã-Bretanha que teve uma linha política conforme os zig zags impostos pelos diktats da burocracia soviética e até da própria secção britânica da IV Internacional… que se recusou a adotar a “política militar revolucionária” avançada por Trotsky, a WIL que não escamoteava o carácter imperialista da guerra, proclamava (muito sinteticamente)  que, se os trabalhadores britânicos não queriam ser subjugados pelos nazis, não poderiam confiar esse combate nas mãos da classe dominante britânica (que tanto gabara Hitler e as suas políticas antes da guerra) e que só a classe  trabalhadora, com os seus métodos e organização, poderia levar a cabo essa luta de modo bem sucedido, agitando a necessidade de transformar a guerra imperialista numa guerra revolucionária contra o fascismo! Sem surpresas, para o fim da guerra, a WIL era o grupo comunista mais ativo, transformando-se no Revolutionary Communist Party e tornando-se na secção britânica da IV Internacional com a absorção das reminiscências dos outros grupos. 

O Fim da guerra (e como já explicámos) trouxe novos desafios. Para os comunistas a teoria marxista não é um dogma e não serve como oráculo: ela é uma ferramenta para a análise e um guia para ação. Ora o resultado da guerra foi baralhou todos os cálculos.  A direção da IV Internacional, contudo, ao invés de rever as antigas perspetivas (traçadas antes da guerra) em função da realidade concreta, cristalizou-se num formalismo estéril. Se Trotsky em 1938 proclamara que após a guerra não restaria pedra sobre pedra das velhas organizações tradicionais da classe trabalhadora, quando em 1947 os militantes da secção britânica contrapuseram “reparem, a situação mudou” … foi-lhes respondido que ainda restava um ano para que a previsão se cumprisse!  A guerra? Se com o fim da guerra não estalara a revolução na Europa… isso só poderia significar – diziam os dirigentes da Quarta – que a guerra não tinha terminado ou que apenas se vivia uma pausa para o recomeço das hostilidades com uma 3ª Guerra Mundial! O Estalinismo? À beira da derrocada! Europa do Leste? Eram países capitalistas, pois como poderia o capitalismo ser abolido a partir de cima, pela burocracia soviética? E se Tito, o líder jugoslavo, cinde com Estaline? Então Tito teria de ser um Trotskista inconsciente! Revolução chinesa? Condenada! Mao apenas procurava capitular diante de Chank Kai Chek nas melhores condições possíveis. Boom capitalista do pós-guerra? Impossível, uma miragem!  

O último prego no caixão foi o “entrismo profundo” decidido no congresso de 1951: basicamente, as secções da IV Internacional deveriam desistir de construir partidos independentes, de ter uma imprensa e voz própria e entrar por um período prolongado nos partidos social-democratas e comunistas de modo oportunista, abdicando duma linha política revolucionária, esbatendo as diferenças, diluindo a sua identidade… para construírem “corrente de esquerda” nesses partidos de massas. Esta decisão acabaria por estilhaçar a IVª Internacional. 

É um facto que a situação do pós-guerra seria sempre difícil para as débeis forças revolucionárias, mas foram estes erros de análise e perspetivas radicados numa incompreensão (de facto) do método marxista que conduziram à bancarrota ideológica e até organizativa da IVª Internacional pela mão de (inexperientes e ineptos) dirigentes incapazes de compreender a evolução do capitalismo, a natureza contraditória do estalinismo ou a verdadeira correlação de forças entre as classes, caindo rapidamente na descrença na força e no papel da classe trabalhadora, balançando entre o mais empedernido sectarismo e o oportunismo mais descarado, tropeçando de quezília em quezília, de cisão em cisão, como ainda hoje o atestam as inúmeras variantes e seitas que se reivindicam da “IV Internacional” – ainda que nada, de facto, possuam em comum com os métodos, o programa, as táticas e as estratégias delineadas por Trotsky… 

Isto teve, naturalmente, um impacto também na secção britânica: às perspetivas, linha política e métodos de trabalho totalmente equivocados, somava-se ainda um ressentimento dos dirigentes da IVª Internacional para com a liderança da secção britânica que, em contracorrente, manteve uma sólida, coerente e correta análise. Porém, não foram apenas as orientações erradas dos líderes da 4ª Internacional, mas também as suas interferências e manobras burocráticas para isolar e afastar a direção britânica, que acabaram por liquidar o RCP.   

Ted Grant e cerca de trinta camaradas, embora isolados da IVª Internacional no princípio dos anos 50, não baixaram os braços. Apesar de politicamente sós e sob um clima político bastante adverso, souberam manter vivas as tradições, os métodos e as ideias do marxismo, ainda que isso os tenha obrigado ao afastamento daquilo que por convenção, mas já não por conteúdo, se continuou a chamar de “IVª Internacional”.  

A maré acabaria por virar, com as décadas seguintes a fazerem girar novamente o pêndulo para a esquerda e para ascensão da luta de classes! Com uma análise correta em relação às perspetivas económicas do pós-guerra, à revolução colonial emergente ou na caracterização do estalinismo, vincando uma sólida ligação à classe trabalhadora e uma correta abordagem ao trabalho nas organizações de massas, tanto nos sindicatos como no Labour Party, foi possível construir na Grã-Bretanha a mais importante organização trotskista da segunda metade do séc. XX, com milhares de aderentes, 3 deputados no parlamento britânico, uma forte influência no movimento sindical e nas organizações juvenis, bem como ter um papel de destaque nas lutas operárias e populares, como foi o caso da Poll Tax.  

As décadas de trabalho paciente, de solidez ideológica, e de ousado ativismo, irradiaram um pouco por todo o mundo, formando-se grupos em vários países a partir dos anos 70 inspirados pelo Militant – que era o nome do jornal da secção britânica – e criando-se uma corrente marxista internacional. 

Porém, desde os anos 30 que Trotsky alertava que, caso a classe trabalhadora soviética não fosse capaz de derrubar a casta burocrática que, mantendo as formas de propriedade herdadas de Outubro, usurpara o poder político; chegaria o dia em que a burocracia haveria de querer assenhorear-se planamente do trabalho e dos meios de produção, restaurando o capitalismo e tornando-se na nova classe dominante. Foi o que sucedeu entre 1989 e 91: os Estados operários deformado do Leste da Europa e da URSS renderam-se ao capitalismo. 

A queda da URSS em 1991 proporcionou um novo fôlego e novas oportunidades de expansão ao capitalismo, enquanto provocava uma enorme desorientação e desânimo entre os ativistas e os sectores mais combativos da classe trabalhadora por todo o mundo. Nenhuma organização política vive no vazio e estes colossais acontecimentos teriam de ter (como tiveram) também um impacto no Militant e na corrente internacional que tinha inspirado, provocando (como sempre sucede em face dos grandes acontecimentos) debates e lutas sobre a política, as perspetivas, as táticas e estratégia do movimento, que acumulara sucessos retumbantes ainda num passado próximo – o que paradoxalmente criara, em contracorrente, um certo “deslumbramento” entre um sector da organização que profetizou a vinda dos “vermelhos anos 90”! Uma grave cisão ocorreu no início dessa década, deitando por terra boa parte do trabalho de décadas.  

Mas embora a queda da URSS (não obstante a sua degeneração burocrática) constituísse uma derrota objetiva da classe trabalhadora, ao contrário do que foi proclamado na época, não tínhamos chegado ao fim da História… 

Um fio inquebrantável 

Nas últimas décadas o desenvolvimento do capitalismo baseou-se em dois fatores: a globalização com a abertura de novos mercados, em particular a China, e a expansão do crédito com o correspondente aumento de circulação fiduciária. Isto chegou agora aos seus limites: não apenas a guerra na Ucrânia está a acelerar a formação de blocos geopolíticos rivais, uma guerra comercial entre eles e o regresso ao protecionismo, mas também a espiral inflacionária e o gigante endividamento mundial (particulares, empresas, países) impossibilitam uma expansão económica suportada pelo crédito. Na verdade, é mais provável que toda a especulação desenfreada, alimentada pelo crédito e o endividamento massivo durante anos, arraste a economia mundial   para um sério fiasco.  

Este é, portanto, o contexto presente: crise sistémica do capitalismo, bancarrota política do estalinismo e completa degeneração da social-democracia, isto é, dos reformistas que já não são capazes de proporcionar reformas no estertor do sistema. Vivemos uma época em que a atual geração viverá pior do que a geração dos seus pais, uma época em que mesmo nos ciclos de crescimento económico nenhuma melhoria palpável nas condições da classe trabalhadora é verdadeiramente sentida.  

Há muito que Marx explicou que a consciência social é determinada pela situação material.  Esses saltos na consciência são dados em momentos de viragem e de mudanças bruscas. E isso tem um reflexo nas organizações da classe trabalhadora e no eco que as ideias do marxismo encontram entre os ativistas do movimento. 

Lenta e pacientemente, nos últimos anos, após a crise dos anos 90, foram sendo reconstruídas as forças vivas do marxismo. O programa, o método, as tradições e as ideias revolucionárias foram sendo preservadas por um fio inquebrantável que atravessou a História, as suas convulsões, as suas dificuldades e os seus retrocessos. Esse fio é a Tendência Marxista Internacional. 

E em Portugal? 

Portugal foi sempre um país periférico no quadro do capitalismo europeu, vivendo em ditadura durante quase 50 anos.  Na revolução do 25 de Abril de 1974 emergiram como grandes forças políticas o Partido Comunista Português e o Partido Socialista que, desde então, conheceram no essencial o percurso que o estalinismo e a social-democracia experimentaram nas últimas décadas a nível mundial.  

Já a chamada extrema-esquerda não passou dum fogo-fátuo da época, rapidamente se eclipsando no final dos anos 70. Anos mais tarde, despindo os seus velhos fatos, os antigos “maoistas” da UDP e os ex-“trotskistas” da LCI juntaram forças e criaram o Bloco de Esquerda. Lenin costumava dizer que o esquerdismo e o oportunismo eram duas faces da mesma moeda. A evolução ulterior do Bloco de Esquerda tem provado isso mesmo. 

Chegados a 2024, não deixa de ser paradoxal que, num momento em que a crise do capitalismo se torna mais aguda, se verifique em Portugal um enfraquecimento tão grande das organizações dos trabalhadores! Mas este é o preço que tanto as forças políticas mais à esquerda, como os sindicatos, estão a pagar pelo seu apoio de anos à “Geringonça”, sustentando um governo do PS que sempre governou em função dos parâmetros e interesses capitalistas e cujas tímidas medidas a favor dos trabalhadores se esfumam agora entre a explosão inflacionária e a subida abrupta dos juros. PCP e Bloco de Esquerda passaram de mais de 1 milhão de votos recolhidos em conjunto nas eleições de 2015, para o seu pior resultado eleitoral de sempre em 2022. 

Mas não nos deixemos atemorizar pelas aparências: são as condições materiais que determinam a consciência. No passado, em dois momentos distintos, tentou-se difundir em Portugal as ideias do marxismo revolucionário. Contudo, tanto no princípio dos anos 80 (quando se vivia a ressaca da revolução), como no final dos anos 90 (quando o capitalismo português conheceu um período grande estabilidade) as condições objetivas e subjetivas eram-nos desfavoráveis. Hoje, pelo contrário, temos connosco o vento da História. 

Entrámos agora num novo período histórico! Isso terá um efeito, tanto nos antigos combatentes, como nas novas gerações que se lançarão à luta. Na verdade, isso já está a principiar no plano internacional e o rápido crescimento da TMI irá em breve dar lugar à criação da Internacional Comunista Revolucionária! E o Coletivo Marxista, seu grupo simpatizante, ancorado na teoria marxista e nas tradições da classe, saberá ocupar o seu lugar na luta de classes. 

 Os desafios continuam sendo imensos, mas as tradições, a teoria, as práticas do marxismo revolucionário foram sendo mantidas e transmitidas nesse inquebrantável fio que percorreu a História. A ti, jovem ou trabalhador comunista que nos lês, desafiamos-te a tomar o teu lugar nesta luta e a juntares-te a nós na construção duma Organização Comunista Revolucionária em Portugal. 

Lisboa, Fevereiro de 2024

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